0 comentários quinta-feira, 11 de dezembro de 2008


Justificaro sol nasceu mais cedo e o dia já amanheceu quente é verão os pássaros e aves de todo tipo estão em polvorosa: têm que alimentar seus filhotes vorazes e famintos os mais diversos sons se espalham contagiosos numa algazarra que se estende por quilômetros o rio passa violento em seu leito como se tivesse pressa para chegar a algum lugar como se desconhecesse seu itinerário previsível talvez ele se sinta jovem e renovado talvez ele sempre faça do seu longo e agitado curso um passeio novo a cada centímetro que suas caudalosas e límpidas águas percorrem o sol brilha ao meio-dia e provoca nuances de azul e verde tão infinitas quando o volume das águas turvas do rio grandes rochas se erguem como totens ou edifícios ao longo de muitos trechos do curso tortuoso e errático o volume anormal das águas na época das cheias na primavera devido ao degelo nas montanhas que ficam cobertas da neve do rigoroso inverno e os ventos e a chuva impiedosos em sua fúria esculpem estátuas naturais seres resignados e orgulhosos que exibem com garbo sua beleza lapidada pela violência de uma natureza hostil mas sábia em seus fluxos e refluxos em sua brutalidade e delicadeza aves descansam ao sol sobre esses espigões naturais nos intervalos entre suas caçadas aquáticas quando se lançam certeiras como ogivas naturais em cima dos gordos peixes que o pródigo rio as oferta em porções infinitamente generosas devido às chuvas e enchentes grandes lagoas se formam paralelas às margens do rio com águas tranqüilas e altamente piscosas atraindo grande e variado número de espécies animais dentre invertebrados e vertebrados: insetos em infinito número incontáveis espécies de aves anfíbios répteis e mamíferos herbívoros carnívoros ou onívoros competem em número ou ferocidade para beberem ou se banharem se refrescando da inclemência do sol diversas espécies de patos nadam nas lagoas há o pato-do-papo-preto que é quase todo vermelho exceto na região que lhe dá nome porque se alimenta de crustáceos que comem pequenos peixes avermelhados de uma espécie chamada redemônio-pequeno que se alimenta da alga-vermelha-filetada que é chamada assim devido a suas folhas terem formato de filetes o redemônio-pequeno tem esse nome porque apesar de pequeno tem uma cara que parece uma máscara demoníaca vermelha em pequeno formato há também o redemônio-grande parente daquele mas este não tem só a cara demoníaca é um dos mais terríveis predadores do rio de seus afluentes e das lagoas é onívoro e caça em cardumes como as piranhas mas bem maior possui dentes afiadíssimos e apetite insaciável é temido tanto pelos seres aquáticos quanto pelos animais que freqüentam o rio seus afluentes e as lagoas menos pelo crocodilo-dourado que com seus grandes dentes afiados sua cauda longa e o corpo delgado e comprido pode vencer qualquer candidato a inimigo bandos de borboletas chegam aos poucos se misturam e pousam na superfície sobrevoando as lagoas um dia depois milhões delas de todas as espécies colorem os campos e florestas de infinitos tons e sobretons borboleta-amarela borboleta-amarela-da-mamoneira borboleta-azul borboleta-azul-seda borboleta-branca borboleta-carijó borboleta-coruja borboleta-corujinha borboleta-da-coronilha borboleta-da-couve borboleta-da-restinga borboleta-de-bando borboleta-de-piracema borboleta-do-manacá borboleta-do-milho borboleta-espelho borboleta-estaladeira borboleta-folha borboleta-folha-seca borboleta-gema borboleta-imperador borboleta-jandaia borboleta-listrada borboleta-monarca borboleta-namorada borboleta-oitenta borboleta-oitenta-e-oito borboleta-pequeno-caixão borboleta-rubi borboleta-transparente borboleta-viúva borboleta-zebra borboletinha-do-mato e milhares de outras espécies parece que não há espaço suficiente a ser preenchido por elas parece uma só entidade pousando sobre plantas arbustos árvores relva e até animais de médio e grande porte como um manto multicor toda a paisagem é coberta por elas que fervilham sem parar assim a natureza se assemelha a uma grande tela móvel e flutuante de cores berrantes e metálicas ofuscando o olhar dos animais hipopótamos se agitam nas lagoas incomodados com a vertigem visual a que estão sendo obrigados a suportar até mesmo soltam urros de irritação enquanto se movem com violência espalhando e turvando a água que forma grandes ondas para transtorno e desespero de patos de muitos tipos os quais disputam espaço com cegonhas garças e pássaros que caçam passeiam e nadam aproveitando o calor os crocodilos-dourados se banham ao sol nas margens das lagoas e do rio mas assombrados pelo grande assédio das borboletas fogem para a água deixando para fora apenas seus olhos com o alvoroço dos hipopótamos a plêiade de borboletas se afasta em ondas sucessivas o céu se cobre de um corpo flutuante etéreo e colorido os animais correm assustados e tentam se esconder na floresta é inútil ubíquas elas ocupam cada milímetro não sobrando qualquer mínimo espaço continuam a chegar às milhares e se multiplicam com vertiginosa rapidez não há mais lugar para elas que agora se amontoam umas sobre as outras formando coloridas camadas justapostas os hipopótamos impotentes mergulham na lagoa resignados os crocodilos-dourados acuados permanecem só com os olhos para fora d’água com a falta de lugar na terra a superfície das lagoas começa a se encher de repente estão repletas de milhões de borboletas sobre os patos garças cegonhas e outras aves que desesperadas voam para bem longe sopra um vento suave pouco a pouco torna-se revolto um redemoinho se forma e suga considerável quantidade de borboletas a vegetação se agita árvores e arbustos se curvam novas borboletas surgem e se multiplicam e por falta de espaço se sobrepõem novamente em camadas numa orgia colorida um vento forte traz alguns gafanhotos-grandes que em furiosa sanha carnívora começam a devorar as borboletas o vento forte não pára e com ele vêm novas levas de gafanhotos de todos os tipos gafanhoto-argentino gafanhoto-bandeira gafanhoto-cobra gafanhoto-crioulo gafanhoto-d’água gafanhoto-de-arribação gafanhoto-de-coqueiro gafanhoto-de-jurema gafanhoto-marmeleiro gafanhoto-de-praga gafanhoto-do-campo gafanhoto-gigante gafanhoto-invasor gafanhoto-menor gafanhoto-migratório gafanhoto-peregrino gafanhoto-soldado gafanhoto-sul-americano gafanhoto-verde dentre dezenas ou centenas de outras espécies chegam aos milhares cada vez mais rápido e devoram centenas de milhares de borboletas que continuam a chegar mas agora em menor número o céu e a paisagem vão aos poucos mudando de cor os infinitos tons multicoloridos das borboletas dão lugar aos tons de marrom e cinza dos gafanhotos o ruído perturbador desses insetos assusta ainda mais as aves mamíferos e répteis já acossados pelas inconvenientes borboletas os mais rápidos saem em louca disparada para muito longe e os mais lentos são devorados pela fome insaciável dos gafanhotos que obviamente não se contentam em tragar só borboletas quem não conseguiu fugir pagou com a própria vida do nababesco banquete dos gafanhotos só sobraram os esqueletos no caso dos vertebrados nem um mínimo naco de carne restou quanto às borboletas nem sua sombra o apetite dos gafanhotos parece infinito não satisfeitos depois de terem devorado todas as borboletas mas todas mesmo e outros insetos e vertebrados vulneráveis eles se põem a devorar a vegetação depenam tudo que encontram verde ou não depois que acabam o banquete pantagruélico resolvem descansar um pouco antes de partir para arrasar outras paragens eles não têm um líder que decida tudo é apenas um acordo coletivo tácito o ruído guloso e angustiante da fome infinita dos gafanhotos cessa o silêncio se impõe como um manto negro sobre a terra devastada a paisagem é um triste e infinito deserto com as árvores e arbustos sem sequer uma folha enquanto os gafanhotos descansam um vento sutil e tépido sopra aquecendo a sesta dos gafanhotos em silêncio grandes e verdes louva-deus invadem os sonhos gulosos dos gafanhotos que sucumbem no seu pesado sono ao apetite verde daqueles predadores eles chegam aos poucos não em levas mas individualmente é um banquete insidioso e lento ouve-se o ruido seco das articulações dos gafanhotos se quebrando nas suas bocas e dos corpos crocantes sendo aniquilados pelas garras poderosas dos louva-deus que degustam suas vítimas como se elas estivessem imersas num doce e fatal pesadelo só se ouve o discreto som do estalar dos gordos corpos dos gafanhotos sendo devorados é como o crepitar de uma fogueira lentos e meticulosos eles se deliciam com a calma e os modos que se espera de um gourmet eles se espalham por toda a extensão da grande planície tribanda completamente nua o sol brilha sobre os corpos alongados dos louva-deus expondo nuances de verde sobre as tonalidades marrons dos gafanhotos e marrom cinzentas da terra arrasada o rio percorre seu curso com a violência e veemência habituais revoadas de aves migratórias pousam barulhentas e famintas atraídas pelos milhões de louva-deus que descansam depois de se banquetearem com os gafanhotos as aves migratórias apenas passavam quando avistam do alto a multidão de louva-deus atraídas pela quantidade de comida decidem nidificar e procriar ali mesmo a fartura de louva-deus é tanta que os pais não encontram qualquer dificuldade para alimentar os filhotes negras nuvens se acumulam na atmosfera trovões ensurdecedores e relâmpagos ameaçadores prenunciam as fortes chuvas que não demoram para despencar do céu chove torrencialmente durante dias são como cachoeiras que se precipitam pesadas do firmamento sobre a terra as aves sem a proteção de qualquer folha pois não restou nenhuma sequer tentam proteger suas ninhadas apenas com as asas muitas perdem seus ninhos com os filhotes que caem dos galhos das árvores e arbustos nus e morrem atolados na lama ou afogados nas grandes poças que vão proliferando com a chuva contínua pior desdita têm as aves que nidificam no solo para essas espécies as perdas são imensas os pais quando não morrem afogados têm que se resignar a esperar o próximo ano para procriarem novamente um dia a chuva para como se o céu estivesse exausto de tanto chover o sol volta a brilhar folhas voltam a nascer nos arbustos e árvores antes silhuetas esquálidas desfolhados em meio a uma paisagem desolada as gramíneas voltam a crescer assim como toda a vegetação mesmo com aquela quantidade de chuva parte das aves se salvou e os animais que tinham fugido das pragas das borboletas e dos gafanhotos aparecem para repovoar a região um macaco arborícola salta da árvore ao solo é um indivíduo muito ágil mas seu pulo surpreende a si mesmo sua família pai mãe e irmãos não entendem nem sabem interpretar o que significa aquele salto nunca nenhum indivíduo daquela espécie fizera isso não é parte do seu comportamento são macacos arborícolas que passam a vida toda no topo de árvores altas além disso sua anatomia não está adaptada para tal peripécia e muito menos para se locomover no solo foi um ímpeto inexplicável uma força estranha que o impelia ao solo outras espécies de macaco transitam das árvores para o solo mas não essa adaptada somente às alturas passado o espanto inicial o que se segue é uma barulheira geral um protesto em uníssono dos macacos de cima com o salto imprudente o jovem macaco dominado ainda pelo choque do estranho ímpeto parece não ouvir ou ao menos não se importar com o alarido que vem de cima: paralisado e atônito olha para os lados sobre as quatro patas esboça desajeitado alguns passos ignorando as veementes reclamações vindas do alto parece fora de si com os olhos esgazeados se acalma olha para o chão bate as patas traseiras com decisão no solo algumas vezes como se estivesse se certificando que estava realmente em terra firme patético dá a volta no tronco da árvore quando chega ao ponto onde tinha pulado toma um susto com os guinchos irados que chegam aos seus ouvidos como pedradas sonoras como se estivesse saindo dum estado de transe só então se dá conta da encrenca em que se metera olha para cima e observa o grupo de macacos coléricos está tomado por uma dúbia sensação o prazer de estar pisando pela primeira vez no solo acompanhado do medo de enfrentar a reprovação dos que o esperam lá em cima depois de hesitar alguns minutos sobe a árvore temeroso de um castigo está confuso até mesmo desnorteado havIa experimentado um indescritível sentimento que nenhum dos seus semelhantes experimentara depois disso não se sente mais o mesmo mas agora o aguarda uma censura coletiva escala o tronco da árvore devagar com a cabeça baixa desejando que esse momento se prolongue infinitamente um silêncio incômodo o persegue assim como os olhos espantados dos macacos até sua chegada à copa da árvore quando se aproxima do grupo a gritaria é geral os pais o repreendem com firmeza a reprimenda maior é dada também por eles mas a mando do chefe: dois dias sem comer só água uma aranha espera na sua teia de fios quase invisíveis uma presa com a cautela e a paciência que lhe é peculiar a aranha é transparente o que a torna uma predadora muito bem sucedida os fios da teia são quase transparentes e brilham com a luz do sol a espera por uma vítima pode demorar horas mas de súbito ela se lança ao solo seu corpo transparente aos poucos vai adquirindo um tom branco com focos avermelhados na cabeça e na região das articulações das patas as pinças crescem nas patas dianteiras no seu dorso cresce uma carapaça do mesmo tom branco avermelhado do resto do corpo suas patas que antes dessa metamorfose mediam menos de dez centímetros agora chegam a mais de trinta seu corpo todo se avoluma e fica mais duro à semelhança de um grande caranguejo dois dias depois faminto o jovem macaco volta a se alimentar está ressabiado todos o encaram com desconfiança inclusive seus pais irmãos e outros familiares fica sozinho comendo os doces frutos amarelos que ele mesmo colheu logo de manhã quando se sentia muito fraco autorizado pelo chefe e os pais agora está só assim como nos dois dias em que ficou de castigo tudo indica que as coisas vão continuar na mesma pelo menos por algum tempo mas ele não entende direito o porquê da punição não quebrou nenhum tabu como invadir os territórios de outros grupos de macacos de sua espécie ou de outras isso sim é uma coisa muito grave claro ele entende que descer até o solo é uma temeridade correu um real perigo mas não podia ser castigado e humilhado como quem quebra certos tabus ou será que cometeu erro pior? tabus já são delitos previstos e descer da árvore nunca se cogitou a partir desse ato inaugura-se um novo tabu mas tanto sua família e o chefe têm certeza de que ele jamais voltará a fazê-lo a aranha-caranguejo caminha alguns metros à procura de vítimas apesar de grande ela é quase silenciosa sob essa identidade seu alvo preferencial são roedores e serpentes boa visão não falta a ela ser noturno quando aranha-caranguejo e diurno quando aranha-transparente suas longas patas têm sensores para detectar a aproximação de algum ser pára de repente pois percebe que há algo bem perto em segundos sente que uma força muito poderosa se enrodilha apertando-a e levando-a a um desagradável estado de vertigem que nunca vivenciara seu instinto de sobrevivência de imediato começa a trabalhar e as patas dianteiras com suas pinças grandes que ainda estão livres beliscam em desespero a jibóia a qual apesar das dores não pretende largar a aranha-caranguejo o jovem macaco sente falta de um contato com o resto do grupo que ao que parece o isolou até sua família agora o trata de maneira até certo ponto impessoal e distanciada ele se chateia mas continua colhendo suas frutas e brincando sozinho os macacos jovens com quem antes se divertia também o rejeitam o impulso de descer da árvore para dar um passeio no chão não o deixa é como uma fixação mas devido ao tabu tenta conter seu ímpeto a aranha-caranguejo continua dando beliscões na cobra com suas fortes pinças mas em pouco tempo a cobra consegue se desvencilhar desse incômodo as pinças da aranha-caranguejo são envolvidas por uma das inúmeras voltas do corpo da serpente ao redor de si mesma na natural tentativa de sufocar a aranha-caranguejo por constrição esta tenta um último beliscão doloroso na jibóia mas isso faz com que ela a aperte mais ainda a pobre aranha-caranguejo sucumbe à força violenta da jibóia que em seguida a engole embora com certa dificuldade sentindo-se solitário e abandonado o jovem macaco não resiste à segunda tentação de descer da copa da árvore para dar uma voltinha depois de ter devorado a aranha-caranguejo a jibóia não se sente muito bem fica enrolada num galho qualquer de uma árvore qualquer jiboiando sentindo um mal estar... ela sabe que isso não é normal dorme um tempo e depois acorda o mundo lhe parece opaco e sem graça seu estômago se revira como um liquidificador interno definitivamente não passa bem o jovem macaco sente um peso muito grande em sua cabeça parece que uma rocha caiu sobre suas costas ninguém se comunica com ele nem mesmo o olham e quando o fazem é com devastadora indiferença e desdém a jibóia tenta se deslocar do galho em que está ainda que devagar mas não consegue se movimentar mais do que meros centímetros seu estômago pesa toneladas tem a incômoda sensação de que engoliu uma rocha involuntariamente abre sua enorme boca e permanece com ela aberta durante longos minutos em frenesi seu estômago se revolve ela sente uma dor infinita mas aguarda com surpreendente calma que passe em vão a dor só aumenta experimenta a terrível sensação de alguma coisa devora com fúria o seu interior num movimento de dentro para fora sim é seu pobre coração tem certeza tamanha é sua angústia ai de mim ai! de mim! ela se lamenta e se agita em convulsão no auge de sua dor e aflição quando imagina que seu coração irrompe pela boca se sentindo toda rasgada e dilacerada em seu interior e já quase desfalecida eis que surge à sua frente um ser assustado coberto de sangue e gosma verde-amarelada envolta numa espiral de dor e agonia a grande serpente aterrorizada desmaia despencando pesada galho abaixo e se estatelando no chão completamente abandonado o jovem macaco não resiste ao forte impulso de descer até o chão ele tem perfeita noção do perigo que corre mas a vontade é imperativa olha para os lados e invadido por um misto de satisfação e desgosto o desprezo e indiferença a que está sendo reduzido o maltratam mas agora está livre para descer com muito cuidado e calma deve aproveitar sua liberdade é livre e ninguém precisa dizê-lo é um estado inerente ao seu corpo aos seus gestos mais simples enfim à sua presença no mundo a jibóia agoniza estendida no chão moscas e outros insetos carniceiros já sobrevoam e repousam em seu corpo moribundo volumoso e comprido moscas varejeiras depositam seus ovos em sua pele ferida as dores ela nem as sente mais nos estertores de uma vida feroz e gorda ela só espera ansiosa seu último suspiro a aranha-caranguejo revoltada com o que acaba de lhe acontecer resolve voltar pelo menos por enquanto à sua teia no caminho retorna às características anteriores simples transparente e pequeno aracnídeo de sua teia cujos fios brilham ao sol ela espera com perseverança uma incauta presa enquanto fantasia a sua próxima incursão como aranha-caranguejo sim ela está ainda traumatizada por ser engolida por uma jibóia mas foi esperta o suficiente para sair do corpo daquela serpente gloriosamente rasgando-a inteira por dentro fazendo o uso adequado de suas fortes pinças antes que fosse diluída no mar do ácido suco gástrico daquele poderoso ofídio bastaria ter mais cuidado na próxima ocasião uma mosca pousa num dos fios da teia hora de se alimentar finalmente com os pés no úmido solo dessa vez o jovem macaco pisa mais firme com a decisão que lhe garantirá um papel fundamental na evolução de sua espécie dá não só voltas ao redor da própria árvore como muitas nas imediações mas com tímida cautela não vai tão longe: apesar do seu ímpeto temeroso ele não considera prudente se distanciar ouve sons que nunca tinha ouvido rugidos não tão remotos de animais que ignora mas que causam temor e dos quais pretende manter-se afastado sua visita ao solo é repleta de sustos e sobressaltos até o ruído de gravetos se quebrando a seus pés o assusta seu músculo cardíaco pula inquieto mas isso não é suficiente para que se apavore e volte correndo medroso ao seu lar a aranha-transparente está bem satisfeita muitas presas tinham pousado em sua teia sim, do ponto de vista digamos alimentar não há razão para sua metamorfose mas desde quando as coisas devem ter sempre uma explicação plausível? ela não se conforma em ser uma simples aranha-transparente restrita a uma teia como milhares em toda a floresta sua eficiência como aranha-transparente boa predadora era inegável seu design e o de sua teia eram muito bem sucedidos mas isso não é o bastante para que permaneça sempre uma aranha-transparente enquanto sua teia lhe propicia certo bem-estar através da alimentação e da segurança ela se sente presa circunscrita aos limites circulares dos delicados fios os infinitos espaços da floresta poderiam potencializar o design circular de sua teia sim: a floresta seria sua infinda teia a aranha poderia continuar tecendo-a infinitamente mas preferia estender sua existência à macroteia que é a floresta o assombro de pisar num lugar que não considera seu o agita com incontrolável fúria frenético seu coração palpita estar no chão sozinho lhe causa vertigem que altura nenhuma jamis lhe causou sentir os pés no chão parecia uma busca por alguma coisa desconhecida para além das copas das árvores a segurança da verticalidade e as grandes alturas de um galho a outro que tanto o agradavam no momento parecem menos interessantes do que o estranhamento de sentir a terra firme sob seus pés olha para a gigantesca árvore seu lar pequenino e sozinho conclui que o gigantismo vertical a partir de agora terá que ser compartilhado em suas preferências pela horizontalidade dos vastos terrenos desconhecidos e perigosos da floresta a segurança e a certeza das alturas terá que ser dividida com a insegurança e a incerteza do solo ele se sente diminuto em seu corpo magro e jovem mas está certo de que é isso o que quer mas é uma certeza que vai além da sua consciência está inscrita com toda a força em todas as células do seu frágil corpo é muito fraco para lutar contra essa força avassaladora o gordo cadáver da jibóia jaz estirado no chão para deleite das moscas varejeiras urubus e abutres e condores que brigam por um naco de carne em decomposição o cheiro de carniça se espalha mais aves carniceiras aparecem a aranha salta da tranquilidade e segurança da teia para a vastidão da floresta sabe que pode enfrentar novos perigos mas provou a si mesma que tem suas defesas passa pela metamorfose e em pouco tempo está pronta para passear como aranha-caranguejo de novo o calor vindo do solo sobe como ondas em suas patas dominando todo o seu corpo a cada passo que dá o calor se renova como se antes não o tivesse sentido um ratão-do-banhado cruza seu caminho ele fica paralisado ao deparar com um ser tão estranho a aranha-caranguejo também fica embasbacada esperando alguma reação do ratão-do-banhado que nesse momento não tem a coragem de esboçar nenhum gesto por pequeno que seja há temor mútuo a aranha-caranguejo olha o grande e gordo corpo do ratão-do-banhado agora em pé e ele a observa olhos arregalados em detalhes suas longas patas suas pinças potentes e seu corpo branco-avermelhado longos minutos se esvaem até que a aranha-caranguejo resolve se escafeder aproveitando um momento de distração da aranha num átimo o ratão resolve atacá-la mas antes disso ela se lança ágil sobre ele suas fortes pinças tentam deter os movimentos ágeis do ratão-do-banhado mas ele não está brincando como também a aranha ele tenta se desvencilhar das suas pinças seu corpo dá um rápido giro sobre o corpo da aranha-caranguejo e guinchando se livra das pinças segurando com toda sua força em uma das patas dianteiras da aranha justamente as que possuem pinças ele a torce com a intenção de quebrar suas articulações mas a outra pata ele ainda não tinha conseguido imobilizar mais que depressa ela com sua outra pinça ataca o focinho do ratão-do-banhado que solta um guincho agudo de tanta dor com a pata dolorida a aranha-caranguejo dá um salto meio desajeitado para fora e trata de fugir também dolorido o ratão resolve dar o fora antes que se machuque ressabiada a aranha-caranguejo volta à sua teia e se transforma novamente em aranha-transparente e permanece quieta se recuperando da dor na pata que para sua sorte não quebrou o jovem macaco procura habituar seus pequenos pés às caminhadas ele sabe que não pode ir muito longe primeiro por ser muito perigoso e depois porque seu corpo não está inteiramente adaptado a ficar no chão por muito tempo mesmo que em quatro patas depois de cerca de uma hora suas costas pernas e pés enfim seu corpo inteiro começam a doer então ele tem que subir correndo na sua árvore antes que a dor o aniquile sim ele tinha que subir na árvore da sua família se subisse em outra corria o risco de ser expulso ou até morto por um grupo rival mesmo sendo da mesma espécie que a dele os delicados pezinhos do jovem macaco ficam machucados e quando parado lá em cima num galho distante em silêncio chora de dor e solidão quando caminha não sente de maneira tão aguda o atrito dos seus pés com o solo seu corpo esquenta devido ao movimento e entusiasmo com os novos exercícios e experiências desconfiados de que ele foge para dar suas caminhadas o grupo o isola cada vez mais por outro lado ninguém pode afirmar decisivamente que ele desce da árvore para passear discreto e esperto ele tem conseguido escapar e voltar sem ser notado há um acordo tácito entre os membros do grupo de que por causa de suas supostas transgressões o jovem macaco não merece nem que se lançe um só olhar sobre ele a aranha-caranguejo está moralmente abatida mas sabe que não vale a pena ser dramática afinal ela está bem foi corajosa ao se defender com a bravura que se espera de uma aranha-caranguejo disso ela não tem do que reclamar não podia nem deveria ser tão severa consigo bem talvez essas cobranças fossem em conseqüência das dores que está sentindo mas ela procura se consolar está bem claro não quebrou nenhuma pata apenas alguma dor tem sua teia onde pode se alimentar e descansar é isso mesmo tem que se recuperar se alimentando e descansando cada vez mais desconfiada a comunidade escolhe dois macacos para vigiarem discretamente à distância o jovem macaco que acredita que se está socialmente alijado não é mais obrigado a obedecer às regras do grupo de qualquer maneira pensa que deve ser cauteloso para evitar problemas ou sanções mais pesadas sensível embora marginalizado e aparentemente distante dos olhares do grupo intui que pode estar sendo vigiado ele sempre aproveita a sesta para dar suas escapadas mas até nessa hora é preciso tomar cuidado vislumbra olhares distantes dissimulados sobre si observa suas patas machucadas e as lambe para amenizar suas dores e se curar se alimenta bem e repousa para se recuperar e repor energias um vento gelado sopra impiedoso agitando a delicada embora nem um pouco frágil teia da aranha-transparente a qual permanece imóvel e indiferente aos humores e rigores do inverno nessa época devido à escassez de insetos suas atividades físicas naturalmente diminuem suas energias são poupadas quando entra em hibernação durante alguns dias esse estado é interrompido para eventual reabastecimento e em seguida voltar a hibernar num desses intervalos já devidamente alimentada ela salta de sua teia e se metamorfoseia os pés e mãos do jovem macaco são um pouco diferentes dos demais macacos do grupo não são tão curvados para dentro como os dos outros o design do seu corpo é ligeiramente mais alongado e menos curvado sua cabeça e orelhas são maiores nada que impeça a realização das tarefas cotidianas seus saltos e brincadeiras mas essas características por sutis que fossem sempre foram notadas pela família ao longo do seu crescimento pelos outros membros do grupo essas diferenças no entanto não o impediram de ser aceito pelo grupo grande parte dos animais no inverno hiberna então a aranha-caranguejo se sente mais segura para flanar sem ser incomodada olha para os lados e constata que todos dormem desce da árvore devagar lá embaixo sente com prazer o calor do solo sob seus pés jurou para si que não iria se exceder nas suas andanças o vento sopra morno os galhos das árvores balouçam produzindo um som intenso e luxuriante lança rápido olhar para cima como para se certificar de que estão realmente dormindo experimenta de novo a sensação de pequenez agora com certa satisfação sem se aperceber afasta-se de sua árvore e para sua desolação está longe ou para ser mais exato perdido ensaia alguns passos para se lembrar do caminho inútil fica parado por alguns minutos na tentativa de reconstituir mentalmente o caminho de volta sem o menor sucesso o vento traz estranhos sons algo como escassos risos agudos o jovem macaco gela nunca tinha ouvido nada tão assustador em segundos se avoluma um grupo de ameaçadoras hienas que não lhe parecem estar ali para brincadeiras a aranha caranguejo caminha imersa numa paisagem branca dá voltas algum tempo num ziguezague sinuoso e labiríntico o vento sopra suave e gelado ela gosta da sensação de estar a esmo pela floresta vagar sem rumo definido a teia apesar de proporcionar a ela alimento e segurança circunscreve-a a um microcosmo que ela considera muito limitado ela anseia os grandes espaços as dimensões sem limites da grande floresta diante do riso sarcástico das hienas o jovem macaco não tem dúvidas das suas intenções põe-se a correr desajeitado e logo atrás as vorazes hienas emitindo medonha algazarra desesperado escala com rapidez a primeira árvore sem ignorar que nos galhos aguardam mal-humorados primatas da mesma espécie que a dele mas de outro grupo ao perceberem o invasor os macacos furiosos com a ousadia disparam atrás dele aos gritos a situação se complicaria para o jovem macaco se ele descesse salivando as hienas o esperam lá embaixo não pensou duas vezes: com velocidade estonteante pula de árvore em árvore sem se importar com os territórios que invade atrás de si o alvoroço dos perseguidores só aumenta sentindo a neve macia sob suas patas sem se importar com a baixa temperatura a aranha-caranguejo desfruta pela primeira vez tranqüila a sua liberdade fora da teia sem nada ou ninguém que possa atrapalhá-la ou ameaçá-la mas oh! ai dela! eis que se insinua por entre a vegetação desfolhada alguma coisa viva que a deixa perturbada não pode adivinhar mas parece uma sombra vermelho-alaranjada que se movimentava com certa rapidez continua aumentando o número de macacos e o volume do alarido na medida em que chega em cada árvore seu coração se acelera a aranha-caranguejo entrevê a coisa que tenta se esconder dela um pedaço aqui outro pedaço ali assim de pedaço em pedaço ela conclui que se trata de uma... raposa animais como esse geralmente não se alimentam de aranhas mas é inverno e nessa época há escassez de alimento depois de muito tempo mas ainda muito aflito ele percebe que os macacos tinham desistido de persegui-lo olha com cautela ao redor silêncio exceto o canto das aves e o farfalhar das folhas das árvores pára hora de descansar acomoda-se num galho que o deixa bem escondido exausto adormece depois de algumas horas acorda mais tranqüilo vira-se para cima e vê os galhos com as folhas do verde tenro das altas copas ao fundo o azul intenso do céu de verão macacos menores e inofensivos aves esquilos insetos e outros animais pequenos aproveitam a abundância de alimentos das camadas mais elevadas das árvores ele vaga à toa de galho em galho comendo suculentas frutas parando num galho observa que numa reentrância há a sombra de alguma coisa semi-oculta curioso dirige-se devagar ao local é um susto mútuo quando de chofre ele se coloca à frente de uma jovem e frágil macaquinha da mesma espécie que a dele quando a raposa se põe à sua frente a aranha-caranguejo não se assusta e permanece imóvel aguardando a próxima ação do animal que vai chegando devagar curioso e cuidadoso com seu agudo olfato ele procura sentir o cheiro ainda a certa distância da aranha-caranguejo fareja um odor de sol rio e terra ao mesmo tempo para ambos é um misto de fascínio e espanto fragilizados os jovens primatas se examinam durante alguns minutos aos poucos se aproximam e se acariciam quando o jovem macaco quis ir além das carícias tentando agarrá-la ela o repele com firmeza tratada com violência por seu grupo por descer ao solo como o jovem macaco ela está traumatizada tinha tentado fugir várias vezes mas sem sucesso e na última vez conseguiu escapar à noite enquanto todos dormiam agora perseguida pelo jovem macaco ela se esgueira se lembrando com horror das violências às quais foi submetida a raposa vai chegando cada vez mais perto da aranha-caranguejo à medida que ela se aproxima esta vai ficando cada vez mais nervosa mas não move nenhuma pata sem se deslocar um milímetro a raposa se aproxima mas a aranha-caranguejo não se mexe e sente chegar até ela um cheiro úmido de selva chuva e poeira ela interpreta a aproximação da raposa como um perigo claro mas por outro lado pressente que no caso dela não há sinal de fome ou pré-disposição à agressividade espera ela se aproximar ainda mais para esboçar alguma reação ou seria mais seguro recuar e ir embora? não sabe a expectativa torna-a inerte é como se estivesse presa ao chão finalmente o jovem macaco agarra a macaquinha envolvendo-a com força no início ela resiste mas aos poucos deixa-se dominar depois do sexo comem frutas e satisfeitos experimentam o prazer de estarem livres brincando pendurados nos galhos depois repetem o sexo a raposa se aproxima ainda mais da aranha-caranguejo e examina-a com redobrada curiosidade chega mais perto aproximando o focinho o cheiro de sol rio e terra mistura-se ao cheiro de selva chuva e poeira o casal de macacos copula mais três vezes e depois desce da árvore uma vez no solo sentem-se leves e seguros e inebriados se distanciam da árvore em que estavam uma nuvem de pó se forma sobre a aranha caranguejo e a raposa e os envolve depois que se dissipa ambos já não estão mais lá camuflado numa moita um leopardo espreita o casal o jovem macaco percebe o perigo protege a fêmea pondo-se a frente dela que foge apavorada o leopardo pula com seu ágil e pesado corpo sobre o indefeso macaco devorando-o com seus dentes afiados

Palavras em Transe - tela 10 (2008)
acrílica s/ tela
378,0 cm (diâmetro)

0 comentários segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

no topo da montanha venta muito um ar muito frio gelado mesmo cortante como punhal afiado que atravessa a carne macia é isso um vento frio que cruza o corpo mas o homem não está nu muito ao contrário anda bem agasalhado e quanto mais agasalho veste mais frio passa sozinho sonha acordado com todas as pessoas que conhecera ou pelo menos que podia se lembrar pensa ver uma fogueira ou seria uma pira um grande fogo até mesmo uma miragem num deserto em altitudes geladas confinado a esse lugar tinha todo o tempo do mundo pode ser desesperador mas não vale a pena se desesperar para quê? você se desespera se há alguma migalha de esperança embora sem qualquer certeza também para que ter certeza nesse lugar certezas não cabem em desertos montanhosos lugares rarefeitos onde a temperatura depende do humor do clima certezas são raras se feitas mas não rarefeitas talvez sejam densas pesadas mas ora para que se preocupar com a densidade das certezas e rarefação das incertezas? não há porque pensar nisso mas em alguma coisa deve-se pensar não há porque não pensar em nada não há qualquer motivo para se desesperar não de verdade mas o que digo parece ser uma certeza não nesse lugar não de verdade talvez uma cogitação no mínimo ou no máximo tanto faz medidas e volumes talvez não façam o menor sentido agora como realmente não fazem bem lá venho eu com certezas e dúvidas talvez não se trate de meras certezas e simples dúvidas há um contexto hostil eu diria no mínimo sem dúvida rarefeito de fato então não há por que pôr em dúvida certas evidências eis certezas evidências bem a maior das evidências é que estou absolutamente só e com muito frio as outras podem existir e existem ou talvez mas não resta a menor dúvida de que a solidão e sua frialdade são um fato em minha vida hoje parece que está mais frio... o homem sente o frio gélido chegar aos seus ossos e a fogueira à sua frente sem um pingo de calor gélida miragem talvez sejam minhas lembranças que vêm me assediar como fantasmas roubando meu calor e meu sono são como ondas geladas rajadas de vento que assobiam sibilam incômodas me provocam arrepios e calafrios o pio da coruja-da-montanha anuncia que ela saiu para caçar deixando seus filhotes no ninho aquecidos mas famintos depois de passarem o dia inteiro dormindo quentinhos sob as asas da mãe a coruja que não tem com o que se preocupar na altura em que está o ninho não tem predadores apenas suas colegas corujas-da-montanha que como ela constroem seus discretos ninhos em buracos entre pedras que os protegem da inclemência dos ventos gelados e das nevascas mais ou menos freqüentes tranqüila a coruja-da-montanha desce em vôo silencioso e certeiro para altitudes mais baixas à procura de caça como serpentes e roedores tarefa árdua a coruja-da-montanha passa a noite alternando as temperaturas amenas ou mesmo quentes das florestas com o rigor do frio do topo da montanha seu estômago é pequeno e não comporta tanta caça assim ela é obrigada a fazer várias viagens para alimentar seus vorazes e insaciáveis filhotes regurgitando em suas gargantas ao que parece sem fundo na madrugada o frio se intensifica as lembranças não dão sossego vindo à mente como uma dança malemolente e hipnótica o homem até consegue cochilar um tempo mas acorda chorando nostálgico de um tempo recuado e difuso que já foi bom suporta a fria madrugada atormentado pelas incômodas recordações com o peito apertado ao som do fantasmagórico assobio do vento um som agudo que atravessa metálico cintilante e afiado seu coração me levanto e ando em círculos para esquentar meus pés que estão gelados o vento glacial me traz a certeza de uma vontade que de súbito me domina de continuar ouvindo o pio de satisfação da coruja a cada vez que ela deixa o ninho depois que alimentou os filhotes e parte decidida em busca de mais provisões observar o cotidiano da coruja-da-montanha pode me dar talvez a certeza de que o bater das suas grandes asas o qual apenas ouço de onde estou como a sombra de um som é uma maneira de prestar atenção em algo vivo e não à tentativa frustrante de reviver e tentar consertar ou articular cenas que já nasceram tortas ou mesmo mortas tento percorrer mentalmente o itinerário aéreo da coruja seu olhar matemático e penetrante e seu vôo calculado sua plenitude seu belo corpo suas penas macias seus olhos magníficos não dão margem para dúvidas suas grandes asas alçam o vôo que não será o último mas será sempre definitivo sua existência depende da limpeza ou manutenção das penas principalmente as das asas do silêncio do seu vôo e da abrangência do seu olhar espero o tempo passar isso não quer dizer nada não estou à espera de qualquer coisa muito menos que o tempo passe esperando ou não o tempo passa portanto é inútil esperar talvez isso possa implicar imobilismo ou comodismo e comodista talvez eu não seja vejam bem eu cheguei ao alto de uma montanha quero dizer ao ponto mais alto então eu talvez tenha certeza que não sou imobilista nem comodista digo talvez porque talvez alguém ponha minha opinião em dúvida e se isso acontecer é porque talvez possa não ser verdade o que disse já que há a possibilidade de eu na realidade ser imobilista e comodista pelo menos minha localização física revela que solitário devo ter me deslocado de algum lugar bem mais baixo ou seja talvez na verdade de imobilista e acomodado de fato eu não tenho nada um deslocamento físico pode significar muita coisa embora esteja num lugar onde não haja nenhuma testemunha desse feito lá embaixo ninguém deve se lembrar de mim e talvez não haja qualquer registro sobre mim em livros arquivos ou coisa que o valha não há a menor dúvida de que o fato de eu estar aqui é um deslocamento e tanto e só não pode ser maior porque aqui é o topo não há mais nada acima exceto nuvens talvez estejam me esperando lá embaixo para registrarem a minha façanha ou talvez já tenham me esquecido ou dado como morto e então desistiram de me procurar de qualquer maneira o fato de estar aqui não quer dizer que desisti de viver de qualquer maneira se aparecesse alguém a minha procura devo admitir estaria perdendo seu tempo se permaneço aqui talvez não seja mesmo por desânimo imobilismo ou comodismo mas por opção embora o mau tempo tenha colaborado para minha permanência aqui não sei disso realmente não tenho certeza talvez seja uma maneira de me aliviar de sofrer menos sei lá tentei várias vezes atravessar a grande rachadura da águia um largo intervalo num grande bloco de rocha que domina a maior parte da área superior da montanha só consegui transpor essa grande falha na subida porque estava coberta de gelo e naquele momento não havia risco de avalanches fenômeno muito comum nesse trecho na primeira tentativa usei minhas cordas de alpinismo muito fortes e feitas de material resistente a qualquer fricção em pedras pontiagudas e cortantes mas nessa rocha há imperceptíveis relevos que são como afiadas lâminas o inevitável rompimento da corda me jogou para uma parte muito profunda da falha ferindo-me dolorosamente nas costas e pernas a fenda ou falha era muito escura devido à sua profundidade a muito custo consegui subir sob intensa dor em alguns momentos desmaiei pendurado na corda correndo sério risco de despencar novamente com muito medo de que a avalanche repentinamente me soterrasse de vez e sentindo dores horríveis cheguei enfim na superfície depois de algum tempo curados os ferimentos tentei novamente também com as cordas mas dessa vez nas partes mais estreitas e menos profundas da fenda eram bem raros esses pontos já que as duas características tinham que coincidir foram várias as minhas tentativas numa delas quase morri soterrado por uma violenta avalanche por sorte percebi quando se aproximava fiquei bem rente ao paredão na parte interna da falha respingos nada desprezíveis do deslizamento voaram sobre mim que fiquei literalmente gelado o homem anda em círculos tentando se esquentar fricciona as mãos e depois as leva às faces o vento gelado fustiga seu rosto penetra suas grossas roupas e invade seu corpo como único e arrepiante calafrio o vento gélido assobia uma música fantasmagórica aguda que penetra metálica os tímpanos como faca fria e afiada a dor rasga corpo adentro obrigando-o a se prostrar um frio intenso e uma sensação de desamparo se apossam dele perde os sentidos acorda prostrado em posição bastante desconfortável zonzo com os joelhos e outras articulações doloridas levanta-se com dificuldade ignorando quanto tempo permaneceu inconsciente naquela incômoda posição já é manhã e um sol irônico como se fosse apenas um ornamento sorri para ele sob um denso frio polar caminha trôpego e lentamente para se apoiar numa grande pedra lisa e inclinada apóia-se nela quase deitado ou reclinado e olha para o céu límpido de um azul intenso serra os olhos e apenas vislumbra um impalpável vazio cinza queda-se nessa posição por longo tempo num estado límbico entre o sono e a vigília é surpreendido por flocos de neve que caem sobre seu rosto e dentro de sua boca aberta engasga-se com a neve tosse com exagero curva-se em desespero de repente domina-o o medo de morrer ele que muitas vezes angustiado desejou a própria morte e agora se aflige porque o invade uma sensação de morte a qual com a tosse tenta expulsar a luz do sol incide sobre a neve reiterando sua brancura ofuscante em efeito cegante ainda tossindo muito ajoelha-se na neve e em gesto involuntário leva as mãos aos olhos tapando-os no escuro seu corpo joga-se sobre a espessa camada de neve o contato com a maciez gelada aplaca seu desespero não ainda não chegou a sua hora com uma das faces mergulhada na neve respira aliviado a lebre-da-montanha irrompe sobre a monocromia do branco sua velocidade marrom acinzentada rasga a paisagem alva como uma linha ilusória e efêmera se desenha numa folha de um branco imaculado ele ouve um grito agudo manchando a alvura do silêncio um grito de dor uma linha vermelha sobre o branco dominante sem dúvida de extrema dor a pobre lebre cai e se fere mortalmente numa das várias armadilhas espalhadas na montanha fabricadas pelo próprio homem pronto: seu dia estava ganho uma felicidade resignada o acolhe devagar ele se arrasta em direção à armadilha a lebre jaz morta ao pegá-la o sangue cai em espessas gotas sobre a neve ele examina o animal morto em detalhes toca com delicadeza na sua pelagem patas e orelhas verifica o sexo: feminino mas para seu alívio não parecia estar grávida leva o pequeno corpo ainda quente ao rosto há muito tempo não sentia o calor de um ser ainda que morto um odor forte e selvagem penetra em suas narinas e invade com violência o interior gelado do seu corpo um repentino calor apodera-se dele com sofreguidão roça a pele ensangüentada no rosto grossas lágrimas caem em cascata dos seus olhos se fundindo ao sangue quente com a cara lambuzada chora convulsivamente dentro de suas grossas roupas seu corpo agora está muito quente e banhado de suor o fogo brilha incandescente na paisagem branca sobre uma pirâmide imperfeita o corpinho pelado da lebre repousa atravessado por um tosco espeto de madeira sendo tostado e assado o coração do homem se aquece seus pés frios se esquentam com o fogo ao redor da pirâmide a neve derrete ao redor o cheiro de churrasco se espalha pelo ar frio aquecido o coração do homem bate mais forte o ar quente contamina o ar frio moléculas em revolução espalham-se em estratégias químico-físicas efêmeras um cheiro agradável de carne assada domina um espaço circunscrito como uma ilha de calor e vida diante da caça sobre a pirâmide de pedra seu estômago se movimenta em convulsões algo libidinosas o desejo o queima por dentro seu corpo faminto se lança sobre a lebre assada e ele devora deliciosamente a carne com vontade selvagem o fogo arde e o crepitar da madeira reverbera através da transparente e sólida atmosfera gelada o vidro compacto se rompe em cadeia o ar quente se impõe quebrando as poderosas e vidrentas barreiras de ar frio com prazer o homem se refestela saboreando sôfrego a caça com o ar e o aroma quente do churrasco o gelo retrocede gentilmente em seu próprio espaço o forte odor de carne assada chega ao olfato das corujas-da-montanha às centenas elas despertam do sono diurno e deixam os ninhos com seus filhotes dormindo seu vôo rápido e silencioso risca a atmosfera rarefeita em direção ao apelo do aroma do assado em minutos elas rodeiam o homem a certa distância com seu olhar penetrante cravado no churrasco enquanto come com avidez o homem observa surpreso a insólita platéia seu olhar percorre uma perfeita linha curva em direção aos olhares fixos das corujas ele não tem dúvidas de que a presença delas representa uma ameaça à sua integridade física se não largar sem demora a refeição um vento gelado entra pela sua boca e narinas se chocando com o calor no interior do seu estômago com os movimentos peristálticos acionados pela comida já em processo de digestão seu corpo quente gela numa fração de segundos petrificado arregala os olhos sobre os grandes e fixos olhos das corujas que o cercam ameaçadoras uma onda de calor se sobrepõe ao frio que se apoderou dele segundos antes seu corpo se projeta no alvo espaço seus pés vencem a resistência da neve e marcham em fuga seu coração há pouco letárgico dispara seu corpo agora é uma máquina acelerada que rompe a barreira gelada e opressiva em busca de segurança ele sabe que as corujas querem só a carne assada mas um ímpeto de sobrevivência o impele ao abrigo mais próximo avançando sobre a densa camada de neve que atinge seus joelhos chega a uma gruta sua morada desde que escalou o topo da montanha não muito profunda nem muito alta nas suas paredes ele desenhou corujas lebres e outros pequenos animais da montanha além de rochas paisagens montanhas cobertas de neve e pendurou fotos registros de sua vida antes da subida à montanha sua casa amigos família animais de estimação olha aquelas fotos não há qualquer transparência nelas as imagens antigas se justapõem pálidas em processo de desintegração fotos da montanha se misturam às outras imagens reiterando a opacidade do seu olhar morcegos-da-montanha se alojam no interior da gruta a companhia dos morcegos não o assusta ao contrário do que sentiu com as corujas o temor entre o homem e os morcegos os iguala a sua incômoda presença num mesmo e inevitável espaço os fragiliza a ponto de torná-los quase invisíveis restando um resquício de uma remota crispação um irritante e quase fóssil de uma desconfiança partilhada a contragosto uma opaca resignação residual de convivências convenientes dependurados nas paredes e teto da gruta imagens e morcegos se confundem na noite gelada da montanha só mais essa noite e me mudo dessa gruta os morcegos-da-montanha jamais sairão daqui amanhã ainda que sob tempestade vou procurar outro lugar qualquer reentrância capaz de me proteger da neve a urina e as fezes dos morcegos caem sobre as fotos a acidez e a umidade do guano corroem e desmancham as imagens o cheiro de urina e fezes de morcego se espalha pela gruta e impregna seu interior suas paredes e teto o forte e desagradável cheiro turva o olfato e a paciência do homem que num rasgo de raiva sai da caverna correndo exasperado e desesperado à procura de outro abrigo muito antes do dia irromper flocos de neve caem sobre o seu rosto não com suavidade mas com a brutalidade de uma borrasca a neve que cobre os seus joelhos e a violência da ventania tornam seus movimentos desajeitados e incertos seu corpo parece não obedecer à sua vontade ele se projeta para a frente na tentativa de vencer a resistência da tempestade lembra-se de um lugar que tinha visto há muito tempo muito longe de onde está é para lá que seu corpo em movimento mecânico se dirige não mais o odor mortalmente fétido de urina e fezes de morcegos jura repetindo como uma ladainha o vento frio e cortante parecia parti-lo ao meio ou em mil pedaços uma sinfonia de assobios agudos penetra nos seus tímpanos não está escuro a lua cheia brilha no céu estrelado o vento e a neve fustigam o homem que mal consegue andar ele se arrasta durante horas seu corpo parece despedaçado chega finalmente ao local procurado: duas grandes pedras paralelas que se encontram na parte de cima e formam um “v” de ponta cabeça não chegava a ser uma gruta mas uma boa reentrância exausto protegido da borrasca e bem longe dos morcegos seu corpo se estende sobre uma espécie de cavidade no chão ao fundo da reentrância lá fora a ventania sibila em vários níveis ou camadas de sons agudos uma multidão de morcegos hematófagos e vorazes paira sobre ele tentando atacá-lo a noite inteira seu corpo arde em febre alta a fenda que separa mais da metade da parte de cima da de baixo vai aumentando até ele escapar da corda em que estava pendurado em queda livre à mercê do abismo acorda assustado já é dia a tempestade ainda não se acalmou a coruja voa na manhã cinzenta levando a última refeição ou o café-da-manhã dos filhotes para depois descansar até a noite a tempestade continua furiosa a tarde permanece escura com um tom cinza que se aprofunda até o cair da noite que chega mais cedo o homem passa o dia inteiro sentado olhando a tempestade ouvindo os assovios da ventania seus ouvidos parecem anestesiados pela profusão de sons agudos incessantes a neve castiga a montanha ininterruptamente o vento sopra como uma litania uma sonoridade previsível monocórdia e hipnótica atrás dele jaz um esqueleto humano observa paralisado e indiferente em bom estado não pode estimar há quanto tempo está ali e nem a que sexo pertence jogado no chão o esqueleto de ossos tão brancos quanto a neve começa a se mexer primeiro ele se senta e permanece nessa posição por alguns minutos com uma perna esticada a outra dobrada e um braço apoiado no joelho parece pensar então apóia a outra mão no chão devagar vai se levantando já em pé de braços cruzados ele parece me fitar fica parado como se estivesse olhando para a neve devagar caminha para fora a tempestade já se acalmou e a neve cai em delicados flocos no limiar da entrada ele pára e aprecia a neve caindo corre para fora e esboça uma dança esquisita parece um samba desengonçado evolui com patética desenvoltura ele feixe de ossos brancos sobre a neve e a paisagem branca requebra com a mesma leveza que caem os flocos de neve está esfuziante e acho que sorri para mim estou na entrada da reentrância olhando-o evoluir lá fora ainda dançando ele se aproxima e puxa minha mão como um convite à dança então dizendo não sei dançar não quero eu o empurro contra a parede ao lado ele se desmonta inteiro o frio me invade me levanto vou até a entrada da gruta olhar a paisagem depois da tempestade a tarde está clara mas permanece fria o homem olha para dentro da reentrância e vê ossos humanos amontoados no chão ao pé da parede passa horas montando com infinita paciência e meticulosa atenção todo o esqueleto o sol brilha e o homem sai tranqüilo da sua toca faminto procura as armadilhas que tinha deixado há dias encontra em uma delas uma lebre congelada feliz retorna à toca e assa a caça ao lado do companheiro esqueleto a lenha crepita na fogueira quebrando a vidraça compacta do silêncio o ruído agradável e familiar parece confidenciar a ele palavras quentes as quais seus sentidos interpretam com voluptuosa alegria perto do fogo o calor o invade e o domina sente seu sangue correr rápido pelas suas veias seu corpo todo arde com o calor olha para o esqueleto à sua frente como a um companheiro e pensa “bem talvez seja melhor assim” desvia o olhar ao fogo acompanhando fixamente a dança das labaredas hipnotizado pelas cores ardentes o calor e a intensidade do fogo suas chamas que rompem o reinado da aridez e da frieza suas idéias se embaralham e seu corpo permanece encharcado de suor come com voracidade o coelho depois limpa cuidadosamente seu esqueleto embora com a mesma avidez e ansiedade com que o devorou quando termina o serviço estende o esqueleto da lebre ao lado do humano fica em pé observando-os durante longo tempo analisando cada articulação cada osso cada curva as diferenças e semelhanças entre um e outro a lenha crepita na fogueira com olhos vidrados observa absorto o bailado das labaredas seu corpo molhado treme assaltado por uma onda repentina de calafrios tira com lentidão suas roupas nu senta-se com os joelhos dobrados contra o peito abraçando as pernas as costas ligeiramente curvadas boquiaberto olhos imóveis em frente aos esqueletos parece não pensar em nada o frio não o afeta começa a balbuciar sílabas ou monossílabos incompreensíveis em pouco tempo pronuncia palavras num idioma que nem ele mesmo entende fala desgovernado num acesso fisiológico de incontinência verbal levanta-se e continua pronunciando palavras incompreensíveis encadeando uma crescente e histérica litania com entusiasmo gesticula em descontrole motor andando sem parar ao redor dos esqueletos acelera o andar esboça uns pulos que aos poucos se convertem em dança de início acanhada e desajeitada depois ganha ritmo a dança vai ficando cadenciada e coordenada a estranha fala se transforma primeiro num cantarolar anômalo seguida de uma música dissonante voz desafinada que em pouco tempo numa drástica mudança se reduz a fortes gritos de pavor arrombando a transparente e gélida cortina de vidro do dia ou da noite tanto faz sob torpor olha ao redor de si o vácuo apenas o vácuo como objeto mecânico em movimento desacelerado se deita exausto semblante inexpressivo como uma máscara olhos cerrados ao lado dos dois esqueletos
Palavras em Transe - tela 9 (2008)
Acrílica s/ tela
346,5 cm (diâmetro)

0 comentários

um ruído distante é a única prova de que tem alguém ou alguma coisa viva na área embora a quilômetros de distância mas pode ser só o vento o que é mais provável há muito tempo muito mesmo nada mas nada mesmo acontece ou passa por estas remotas regiões por aqui nem o vento passa mais no fundo não é bem assim quem diz que nada acontece está valorando e se há valor é porque existe movimento ainda que menor se esperam rajadas de vento ou qualquer evento ou macroevento menosprezam os microeventos sucessão de acontecimentos quase imperceptíveis difíceis de se enxergar a olho nu ou de se captar por antenas que apenas captam macroeventos vidas em câmera lenta mas tão lenta a ponto de impossbilitar a irrupção de um movimento abrupto ou rápido que interrompa uma sucessão de micromovimentos lentos como pode realmente acontecer mesmo todos achando que é improvável que aconteça os microeventos parecem rejeitar a si mesmos já que os protagonistas desse estado quase letárgico talvez a palavra não esteja bem colocada vivem em quase invisíveis condições enfurnados em estados ou estágios de discreta mobilidade o tempo passa como na cidade os acontecimentos é que não o problema é que este lugar parece não se assumir em sua mobilidade desconcertante nesse quase vazio como é possível acontecer alguma coisa? as formigas se dependesse delas tudo era só movimento mas sem manifestações bombásticas tudo sempre na maior discrição as vespas predadoras das formigas e cupins com aparência ameaçadora e severa são serenas um pouco mais barulhentas é verdade mas só por seu zumbido adeptas ferrenhas do silêncio e da discrição circunspectas ao extremo sim as vespas voam quase silenciosas os cupins competem com as formigas em discrição e trabalho mas preferem não interromper seus afazeres as lagartixas pensam em silêncio fazendo silêncio as aranhas nas suas teias esperam suas presas silenciosas ou descansam enfastiadas ou satisfeitas na modorra da tarde quente o vento pode-se dizer que está virtualmente ausente há tempo a luz violenta do sol aumenta a temperatura o calor diminui o ritmo e metabolismo dos seres que precisam economizar energias duma toca sai um rato que encontra uma voraz víbora a qual espreitava a toca dele há horas mas infelizmente para ela não foi desta vez que conseguiu saciar sua fome urgente ela bem que tentou abater o rato com todos os recursos de que a natureza a dotou mas foi inútil numa fração de segundos o veloz roedor desapareceu não dando a menor chance para a serpente inocular seu letal veneno o que ela não deixou de fazer quando com segundos de atraso deu seu quase sempre certeiro bote mas dessa vez seu veneno foi depositado na areia para sua enorme frustração terá que continuar esbelta por pelo menos mais meio dia ou com alguma sorte um pouco menos as aranhas nesse ambiente árido e sem vento têm que usar outras estratégias para atrair suas presas a teia é eficaz mas não para a maioria dos aracnídeos que habitam esse lugar tem as aranhas que vivem no solo e nos buracos tem aquelas que habitam as árvores em seus troncos e galhos ocos ou reentrâncias e outras que vivem e dormem camufladas ao relento mesmo que todas as espécies de aranha da região tenham seu poder de camuflagem algumas espécies adotam apenas algumas características ou cores outras capricham um pouco mais no disfarce com características mais marcantes como algumas semelhanças no design do ambiente tais como folhas troncos e galhos de árvores e há as que adotam camuflagem total ou quase com design que imita com fidelidade detalhes do habitat com todas as suas cores tons e subtons lagartos lagartixas e iguanas camuflados também mudos e concentrados vigiam com olhos fixos suas presas locomovem-se com desenvoltura por troncos galhos solo pedras paredões de pedra e até mesmo dentro d’água quando chove o que acontece raras vezes com sutileza eles se esgueiram mal tocam suas patas nas mais variadas superfícies caçadores implacáveis sondam toda a área antes de fixar seus olhos numa potencial vítima os camaleões passeiam tranqüilos nos galhos com os tons verdes das folhas como camuflagem moscas mosquitos abelhas besouros e outros insetos em raro período úmido sobrevoam arbustos que esperam por esse momento anos a fio e saboreiam as frutas adocicadas e abertas pelos pássaros os camaleões só têm que esperar as moscas se aproximarem e esticar suas longas línguas até suas presas a camuflagem é um recurso bem sucedido mas há predadores que desenvolveram a capacidade de discernir o ser camuflado do ambiente os lagartos e algumas espécies de camaleões por exemplo eles mesmos altamente camufláveis que caçam espécies de insetos que têm disfarce quase perfeito as lesmas verde-musgo saboreiam o musgo dissimuladas correndo risco de serem devoradas por indivíduos da mesma espécie que não sabem discernir musgo ou lesma pequenos lagartos-verdes voadores planam nos ares repletos de insetos se deliciando com essas iguarias vivas mas petiscos mesmo são no que se convertem os próprios lagartos voadores como que do nada aparecem pássaros de penas douradas em rápidas e sinuosas acrobacias aéreas magníficas caçadoras do ar essas aves chegam silenciosas caçam em silêncio e vão embora como chegaram no mais completo mutismo suas penas douradas brilham ao sol com nuances furta-cor retiram-se em revoada em visão estonteante uma pena de um deles cai e flutua irradiando um brilho ofuscante por longos minutos enquanto se afastam em vôo coordenado parece que um vazio cai sobre o lugar como um manto pesado e escuro depois de uma repentina e efêmera visão do paraíso alta madrugada a lua cheia brilha e ilumina o deserto a sua luz incide sobre as dunas projetando sombras irregulares o luar invade os sulcos desenhados pelo vento na areia e nas rochas tanto as pedras quanto a areia brilham com o reflexo dourado do luar são grãos de areia ou pequenos pedaços de rocha cintilantes sombras se alongam disformes fantasmagóricas montes de pedras parecem se erguer como seres animados suas sombras lembram antigos animais agigantados mesmo os próprios montes de areia sob a penumbra lembram estranhos seres inertes hieráticos suas sombras reiteram sua condição visualmente híbrida sob a luz do sol não passam de montes de pedra ou de areia embora sua presença ao dia já intrigue nas sombras da noite se transformam em emblemáticas formas as quais lembram seres de um suposto passado que repousam placidamente na eterna noite do esquecimento depois de reinarem sobre a terra e sobre todos as formas de vida depois duma existência longa e vitoriosa e a glória dos dias passados com seu violento ímpeto de vencer e imperar descansam na ambígua massa mineral fósseis virtuais que em seu silêncio eterno aparentam infelicidade com sua atual condição como se fossem vítimas dum castigo imposto por um ser ou força superior parecem seres que depois de uma vida gloriosa resistem a um destino incógnito e desinteressante que a noite com sua implacável lua cheia e suas dramáticas sombras desvela impiedosa resignados em seu pétreo ou arenoso ocaso e disfarce devem detestar a noite que sem qualquer pudor parece sorrir sarcástica a cada nuance ou lance da luz e da sombra na modorra da tarde cigarras tecem seu canto transcendental litania minimalista que domina o espaço torna-o cheio denso quente e funde-se a ele a ponto de tornar-se o próprio espaço como um órgão numa igreja o som invade o espaço adensa-o com seu timbre cheio instaurando uma atmosfera mística a luz do sol brilha ofuscante acentuando a densidade do ar ou antes o contrário alguma leveza letárgica as cigarras com seu canto etéreo saturam o ambiente elevando a já alta temperatura as serpentes noturnas descansam em suas tocas fazendo a digestão das refeições da noite passada enrodilhadas em si mesmas e em sonhos gulosos e viperinos a ladainha erótica das cigarras mal chega às tocas escuras e frescas das serpentes é uma doce trilha sonora dos seus sonhos povoados de banquetes regados de letais venenos grandes petiscos sobretudo ratos grandes ratos ratazanas ratos de todo o tipo num pantagruélico e glamuroso jantar sonhos gordos numa crescente comilança a algazarra das cigarras lá fora se acentua lá dentro sonhos obesos os ratos crescem engordam incham a música se intensifica as cobras se remexem excitadas preguiçosas em seu sono profundo repondo energias para uma noite igualmente intensa enquanto as cigarras vão descansar suas gargantas poderosas mas esgotadas as serpentes saem de suas tocas excitadas voam com seus botes velozes e certeiros como lanças venenosas sobre suas incautas vítimas enquanto as cigarras sonham com guitarras envenenadas a rã do deserto é um paradoxo é um anfíbio e os anfíbios todos sabem passam grande parte de sua vida na água mas esta rã notívaga dorme o dia inteiro em toca fresca protegendo-se do calor infernal e à noite sai para caçar insetos e absorver o orvalho sob as baixas temperaturas desérticas sua pele sensível e porosa retém o orvalho e um dispositivo biológico regula a quantidade de água que deve ser retida caçam os insetos que descansam escondidos embaixo da areia suas patas têm sensores que detectam e desenterram grilos cigarras escaravelhos e outros besouros baratas-do-deserto moscas mosquitos mutucas e outros petiscos apetitosos caçam até cerca de sete horas da manhã quando o sol ainda está ameno as últimas gotas de orvalho começam a cair e os insetos começam a sair debaixo da areia momento de festa com milhares de rãs caçando milhões de insetos fechando a noite num glorioso grand-finale a felicidade só não é completa porque aparecem as perigosas víboras-vermelho-intenso que vêm banquetear-se com as deliciosas rãs milhares dessas serpentes vorazes esperam essa hora as rãs têm muito pouco tempo para caçar o maior número de insetos possível nesta corrida contra o tempo as espertas rãs levam a melhor a maioria escapa pulando bem alto mas algumas infelizes não escapam de virar sobremesa das víboras eu disse sobremesa: as víboras não podem contar a priori com um lauto café-da-manhã de rãs antes devem se abastecer o quanto possível as rãs são realmente espertas e pulam muito alto só algumas víboras felizardas têm a sorte e o prazer de se deliciarem com esse petisco as outras ficam olhando frustradas as rãs fugindo olimpicamente ruminando despeitadas ódio das sortudas colegas e óbvio das rãs mas prometendo a si mesmas que da próxima vez elas não vão deixá-las escapar a mosca-cor-de-cobre passeia ao sol assim como quem não quer nada mas quem a conhece sabe que qualquer passeio dela não tem nada de despretensioso dentre as moscas só a terrível mosca-cor-de-cobre brilha com a luz do sol nuances de vermelho metálico furta-cor tão infinitas quanto a intensidade da luz do sol que incide de maneira regular mas com infinitas variações produz um efeito hipnótico em quem lança uma mínima olhada sobre esse inseto qualquer animal vertebrado ou invertebrado entra em estado de momentânea inconsciência que dura pelo menos o tempo suficiente para que apareça um enxame de milhares de moscas se a vítima for um animal de grande porte ou apenas algumas moscas se for um pequeno animal ou só a mosca hipnotizadora se a vítima for só um inseto a mosca que hipnotiza emite um sinal para as outras moscas avisando-lhes qual o tamanho da presa e com essa informação aumenta ou diminui o número de candidatas a desfrutar a refeição a intensidade do sinal varia do mais agudo quando a presa é um pequeno inseto nesse caso o aviso também quer dizer não se aproxime então a vítima é consumida apenas pela própria mosca ao mais grave quando a vítima é um animal de grande porte e há comida suficiente para milhares delas a maneira como devoram não varia de vítima para vítima é sempre do mesmo jeito elas sugam sem parar com sua língua em forma de canudo o animal abatido até não restar mais nada nadinha dele quando são convocadas elas têm que competir desde o momento que partem rápidas e ágeis as moscas adultas enrijecem seus corpos abrem suas grandes asas e já impõem seu poder sobre as demais competidoras que estão próximas essa mosca poderosa ainda terá que competir com muitas outras do mesmo nível assim como as mais fortes que ela e as mais fracas competirão entre si são vários níveis que abrangem as mais fortes das mais fortes as médias das mais fortes as fracas das mais fortes assim como com o nível médio e o fraco e seus subníveis as que sobram no fim de cada subnível são rebaixadas para um nível inferior os animais as temem ao menor sinal da presença ou proximidade delas abaixam suas cabeças fecham seus olhos e ficam parados assim nada acontece com ódio no coração as moscas afastam-se à procura de uma vítima incauta as moscas-cor-de-cobre detestam ser confundidas com as moscas-cor-de-cobre-e-pretas que se camuflam parecendo aquelas para não serem predadas pelas rãs camaleões e lagartos em geral elas têm apenas um detalhe que as diferencia das moscas-cor-de-cobre: uma pequena mancha preta no dorso que as impede de ter um brilho tão intenso quanto as moscas-cor-de-cobre ninguém entre os animais por simples pavor sabe identificar a diferença entre a mosca-cor-de-cobre e a mosca-cor-de-cobre-e-preta exceto as moscas-cor-de-cobre que caçam aquelas impiedosamente as moscas-cor-de-cobre-e-pretas se alimentam de animais em decomposição inclusive os ossos elas vagam erraticamente pelo deserto à procura de carniça uma bola de fogo invade a atmosfera e antes que caia no chão explode em infinitos pedaços de tamanhos variados mas nada desprezíveis depois da explosão do meteoro gigante os pedaços em fogo se projetam no ar produzindo um espetáculo visual assombroso na noite escura de lua minguante os animais noturnos às voltas com sua vida cotidiana correm assustados para os seus esconderijos e tocas é um alvoroço e um desespero que ninguém esperava alguns animais espertos e oportunistas aproveitam o clamor e a bagunça geral para caçar animais aterrorizados e desatentos como as cobras-negras-da-noite esta espécie de serpente que se esgueira camuflada nas sombras da noite e da madrugada enxerga muito bem e sua pele e língua possuem membranas que detectam a proximidade de potenciais presas a metros de distância camuflada de noite a gulosa serpente se arremessa pelos ares planando alguns metros sobre a presa sua rapidez e capacidade visual impossibilitam à vítima qualquer chance de defesa ou tentativa de fuga a sagaz serpente cai certeira em cima da vítima enrodilhando-se nela em segundos e em seguida matando-a por asfixia a coruja-serpentária parece também não se importar com o alvoroço e assiste estóica à cena da cobra-negra-da-noite devorando sua vítima nesse caso um rato a coruja que não é boba nem nada e caçadora implacável com a maior calma resolve fazer dupla refeição serpentes são sua principal dieta mas roedores como ratos e coelhos não escapam do seu apetite com rapidez extraordinária ela voa sobre a cobra-negra-da-noite que ainda devora o rato numa fração de segundos ela tira o rato da boca da cobra antes que esta o engula e deixa-o já inconsciente de lado rapidamente espezinha a serpente que percebendo o risco que corre e sem poder se defender tenta desesperada escapar enquanto a coruja apressa o pisoteio sem ao menos olhar para a presa parece apenas enxergar o vazio em alguns minutos ela saboreia a dupla refeição sob total silêncio a galinha-preta-do-deserto espreita incógnita imersa nas sombras da madrugada ela se alimenta dos restos de comida dos predadores quando eles vão embora a galinha-preta-do-deserto vai saborear os restos das iguarias as moscas-cor-de-cobre-e-pretas já estão sobre uma carcaça há muito tempo e em grande número o que irrita a galinha-preta-do-deserto ela tenta exasperada afastar as moscas-cor-de-cobre-e-pretas e volta-se para o enxame em revoada protestando com um agudo cacarejo que ecoa pela noite desértica como se um espesso tecido negro fosse rasgado um som metálico que irrompe o ar seco anunciando a madrugada e despertando a coragem nos animais entocados por medo da explosão do meteoro invadindo violentamente seus tímpanos e cérebros em movimento instantâneo espontâneo e simultâneo os animais depois de terem passado longos minutos paralisados saem das tocas exceto os diurnos que dormem profundamente e apenas sonharam com a explosão os cachorros-amarelos-do-deserto acabam de chegar de uma longa e distante caçada os filhotes esperavam ansiosos e famintos por essa hora protegidos numa espécie de creche sob os rigorosos cuidados de uma cadela-babá que já não agüentava mais a fome e a ansiedade dos filhotes os quais latem desesperados com sons agudos e às vezes lancinantes o que desperta nas mães e pais extenuados sentimentos de propriedade e proteção quase adormecidos por tanta fadiga os pais identificam seus filhotes pelo cheiro e os ganidos depressa regurgitam nas suas bocas famintas nacos da carne da caça famélica a cadela-babá também recebe seu quinhão se instala um clima de regozijo no ar acentuado pelo canto transcendental das cigarras a pelagem amarela e curta dos cachorros tem um tom muito semelhante à da areia se vistos à distância parece que é areia em inusitado movimento depois da refeição todos adultos e crianças se refestelam na areia morna do fim da tarde sob a sombra de um monte de pedras muitos pais e os filhotes brincam correndo atrás uns dos outros ou se mordendo de leve aquelas brincadeiras que os cães sempre fazem e os filhotes repetem como exercícios para futuras caçadas eles caem roçando seus pêlos na areia em prazeroso banho os adultos mais preguiçosos apenas observam exauridos da caçada e da longa jornada pássaros vermelhos passam com grande alarido em vôo rasante a vários metros de altura os cachorros se agitam e mesmo satisfeitos por instinto saem correndo atrás das aves com enorme alvoroço elas percebem do alto o latido feroz dos cães-amarelos-do-deserto que frustrados olham com inveja o vôo enérgico dos pássaros o vento finalmente dá o ar de sua graça de início um sopro suave acaricia os corpos dos animais e levemente calmo se manifesta em pequenas ondas alguns animais se incomodam não vêem nisso bom sinal outros como o gambá-vermelho-e-preto continuam caçando e brincando com aparente tranquilidade o vento ainda permanece calmo mas de maneira quase imperceptível vai aumentando sua intensidade as aves ainda estão no céu aproveitando as correntes de ar quente algumas partículas de areia pairam no ar ouve-se o grito histérico de uma ave incógnita o vento volta à carga aumentando ainda mais sua intensidade aos poucos as formigas-vermelho-metálico resolvem se recolher em seu formigueiro um pouco mais cedo há animais que ainda suportam o vento que só aumenta e muitos continuam caçando ou se divertindo distraidamente sem perceberem que o tempo passa e que o vento sopra cada vez mais forte alheios aos apelos da natureza não se dão conta do risco que correm finalmente os mais relapsos sentem o drama e começam a se recolher os maiores ainda conseguem se arrastar fixando com firmeza suas patas ao chão ou melhor à areia que parece sumir dos seus pés os animais menores sucumbem arrancados do solo pela força da ventania que em pouco tempo se transforma numa tempestade de areia os animais que não foram soterrados são suspensos carregados por um redemoinho são muitos animais de pequeno e grande porte tantos que se chocam uns contra outros e ainda com vida tentam fazer sua última refeição serpentes que enlaçam pássaros que bicam lobos que mordem com ferocidade outros animais em vão corpos se chocam com violência no ar envoltos em densa nuvem de areia os bichos se dilaceram o vento cada vez mais forte a areia torna-se massa compacta milhares de corpos esquartejados o sol brilha na areia onde jazem os pedaços dos mais variados animais restos mortais amontoados e misturados de uma fauna variada vê-se que o deserto não é assim tão deserto cabeças das raras raposas-cinza-do-deserto junto a corpos de escorpiões agigantados serpentes mortas mas enroladas em mulas-do-pescoço-comprido-do-deserto agora sem cabeça as misturas são infinitas o vento teve tempo suficiente para arquitetar os mais absurdos acasos e bizarrices os animais sobreviventes saídos de suas tocas depois da tempestade incrédulos mas felizes com tamanha mortandade refestelam-se com o mega-banquete das vítimas do vento o sangue tinge a areia animais de todas as espécies e de todas as partes do deserto acorrem vertebrados e invertebrados mamíferos ofídios aracnídeos insetos e aves as mesmas espécies vivas devoram as mortas o sol a pino os animais absortos saboreiam os cadáveres sem prestar atenção no que se passa ao seu redor abutres brigam com chacais pela posse de uma carcaça que já pertence a um tigre e seus filhotes nos dias subseqüentes com o apodrecimento dos milhares de cadáveres que ainda não tinham sido devorados animais carniceiros continuam participando do banquete mas quantos animais! quantos abutres condores e urubus quantos diferentes tipos de moscas e mosquitos ao contrário do que muitos pensavam a intensidade do fluxo de animais só aumentou fluíam carniceiros de todas as paragens sendo as aves os que vinham de lugares mais longínquos e claro os insetos que pareciam vir com o vento mas qual vento se aparentemente talvez cansado ele parou de soprar por completo ou quase? depois de toda essa destruição o vento se ausenta do deserto o sol e o calor se impõem impiedosos mas parecem não incomodar os animais estrangeiros por enquanto há comida para uma multidão de carniceiros os dias vão passando o sol reina escaldante e inclemente muitos animais se retiram aos seus lugares de origem na ânsia de comerem o que podem e o que não podem muitos morrem de congestão e insolação ali mesmo sem qualquer força para continuar outros caem fatigados a caminho de casa no meio do trajeto ou até mesmo quase chegando o vento passeia veloz pelo hospital semi-escuro a lua-cheia brilha no negrume e sua luz dourada projeta sombras disformes e alongadas nas grandes alas e quartos o vento perambula dentro do hospital lá fora tudo calmo como se ele não existisse passa às vezes suave às vezes veloz sobre as sombras e escombros ele controla sua velocidade sutilmente e modula seu som de acordo com a acústica de cada ambiente o vento se cansa de ficar lá fora as sombras se estendem imagens pontiagudas em meio ao clarão dourado da lua cheia lá fora o mato se curva assustado ante a passagem inesperada e furiosa do vento ríspido ele volta se recolhe para dentro do hospital esculturas colossais habitam o jardim banhadas pela luz dourada da lua no meio de grande praça circular cercada de arbustos há a estátua de uma naja gigante enfrentando um leão de dimensões correspondentes às dela o leão parece emergir das sombras com olhos expressivos sua juba parece se movimentar com os reflexos dourados do luar a naja mira o leão com olhar não menos desafiador ou ameaçador o luar derrama sua luz dourada sobre a cena projetando sombras alongadas e dramáticas que se prolongam adquirindo uma quase independência visual como se fossem outros seres que de vivências secundárias adquirem vida própria uma outra estátua num canto quase escuro do jardim: a representação colossal de uma aranha negra de pernas muito longas e em posição de ataque sua sombra se esparrama deformada por pedras brancas irregulares e buracos em pavimento deteriorado outra estátua: a de um grande dragão lutando contra uma enorme serpente o dragão está em posição de ataque e apoiado nas duas pernas traseiras parece prestes a atacar com as garras das patas dianteiras de sua boca enorme com dentes afiadíssimos sai uma longa língua dividida ao meio como a dos répteis seu focinho é muito grande como o de um jacaré no meio do seu corpo do focinho à cauda há saliências cônicas enfileiradas com o tamanho e o volume crescendo a partir do focinho até atingir os pontos mais altos na região dorsal para depois ir diminuindo até a ponta da cauda a cobra em posição por assim dizer clássica enrodilha-se começando da cauda e se arma a partir da metade do seu corpo em posição de bote sua boca aberta exibe dentes longos e afiados repletos de veneno em cada lado da sua cabeça há uma protuberância simétrica como chifres outra estátua colossal representa uma águia que tenta espezinhar uma serpente a águia nem olha para sua presa apenas parece mirar com frieza o nada enquanto seus pés pisoteiam impiedosamente a cobra que apesar do desespero parece enfurecida e inconformada com seu inglório destino o vento passa leve pelas estátuas e esquadrinha seus detalhes suas mínimas reentrâncias durante longo tempo ele fica por ali como se estivesse examinando com meticulosa atenção cada curva cada mínimo movimento do sinuoso desenho do bronze material de que são feitas as esculturas sua longa estada produz um som metálico resultado de sua minuciosa apreciação a luz dourada da lua cheia brilha fraca nesse momento: uma nuvem encobre parcialmente o satélite o som metálico se intensifica torna-se mais agudo o vento passeia cada vez mais rápido sobre as esculturas mas é uma rapidez algo suave de alguém que observa curioso ou que não consegue entender e tenta decifrar certo código que não domina ou ainda alguém muito ocupado que interrompe de repente seus afazeres cotidianos para se distrair com alguma coisa que não tem uma finalidade prática depois de um longo tempo ele parte sem deixar vestígios como se nunca tivesse passado por ali o céu forrado de estrelas o orvalho caindo sobre as plantas o vento desliza com delicadeza as plantas se agitam e se curvam reverentes com a sua passagem a lua cheia se reflete no lago dos jacarés que descansam nas suas águas tépidas pássaros fazem seus ninhos no sótão do antigo hospital a fúria do vento junto com a chuva destelhou grande parte da construção cegonhas e pelicanos escolheram o que restou do velho hospital como local de procriação e nidificação é uma algazarra sem fim uma balbúrdia que só termina quando os filhotes estiverem crescidos tempo suficiente para voar e viverem independentes dos pais um ano depois voltam os filhotes para procriar assim como seus pais e avós que ainda acasalam eles terão que arranjar um parceiro fiel até a morte em maio quando o vento frio do sul começa a soprar as últimas aves partem a maioria já bateu as asas em abril quando uma leve brisa vinda do sul prenuncia o frio depois que as últimas aves partem reina o silêncio ou melhor o som insidioso do vento sobre a vegetação e as ruínas do hospital minando-o e deteriorando-o sem interrupção e piedade pequenos lagartos passeiam pelas paredes quase que totalmente tomadas pelo musgo e por todo tipo de mato uma variedade enorme de insetos povoa e sobrevoa as ruínas e os imensos jardins agora em quase completo estado selvagem ao contrário de antes a arquitetura ocupa posição cada vez mais coadjuvante espécie de suporte para a natureza como velhos navios afundados no oceano muitos cômodos do velho hospital estão completamente desaparecidos tomados pela fúria do mato grosso os fortes troncos de unhas-de-gato se cruzam sufocando as paredes fragilizadas pela umidade a floresta toma conta do que antes era seu e que tornou-se uma grande clareira um vazio na paisagem a natureza retoma seu pedaço imprime seu sopro de vida e anuncia novos ou antigos tempos as formigas abelhas e cupins trabalham com o afinco de sempre sem se importar com o que acontece ao seu redor para elas a vida segue a mesma apenas há mais lugar para seus infinitos formigueiros colméias e cupinzeiros o vento nunca os esquece bem o vento não esquece nada nem ninguém a todos contempla a muitos destrói e é testemunha da morte ou desaparecimento de tudo não cabe ao vento lembrar ou esquecer
Palavra em Transe - tela 7 (2007/2008)
Acrílica s/ tela
318,0 cm (diâmetro)

0 comentários segunda-feira, 10 de novembro de 2008

A vídeo-instalação de Raquel Garbelotti para a XXV Bienal de São Paulo é composta de três estações ferroviárias abandonadas: Agulhas Negras e Engenheiro Passos, em Resende (RJ) e Queluz (SP). São imagens paradas, quase fotográficas, que com olhar contemplativo investigam e parecem perguntar o porquê do abandono. O silêncio que as imagens suscitam é reforçado pelo contraste dos sons da natureza, dos moradores que ocupam uma das estações e do ronco permanente de carros e caminhões que transitam pela Via Dutra, paralela à ferrovia.
Memória e esquecimento são componentes de um mesmo sistema e estão interligados através de uma intrincada, contraditória e orgânica cadeia onde o homem desempenha função fundamental. Esse dinamismo é uma infinita rede de paradoxos, um emaranhado de situações caóticas. O oblívio a que estão submetidos esses objetos arquitetônicos, as ocupações e usos que se fazem deles nos dias que correm não têm nenhuma relação com a sua utilidade original. Mas, essas construções parecem não lamentar a sua atual condição. É como se elas se resignassem a um destino inescapável e comum a todas as coisas: a obsolescência dos corpos, vida e morte, memória e esquecimento.
O abandono é complexo e talvez sua tranqüilidade resignada venha das novas apropriações que o homem, com suas velhas necessidades, faz dele ou a Natureza se encarrega de preencher. Podemos notar isso através da observação dos movimentos dos homens no vídeo, dos sons dos pássaros, ventos e vozes humanas, indícios de um cotidiano aparentemente tranqüilo e sem maiores sobressaltos.
Na contramão, o esquecimento e a Memória Universal e humana têm uma turbulência e urgência ressaltadas pelo barulho dos motores que trafegam com pressa pela Via Dutra. São índices dissonantes que podem revelar a balbúrdia angustiante da existência humana, conflitante desde a sua gênese. O esquecimento e a memória coexistem assim como o silêncio e o ruído.
O surto tecnológico propiciado pela Revolução Industrial a partir da segunda metade do século 18 e ao longo do século 19, do qual o trem é um dos seus depositários e ícones, resultou na substituição desse veículo pelo carro no século 20. Além de ser eficaz em sua velocidade e praticidade, o carro proporciona a sensação de individualidade e privacidade, valores tão caros ao imaginário dos séculos 20 e 21. A industrialização e os lobbies das grandes empresas envolvidas, direta ou indiretamente, no incremento e manutenção do automóvel, têm imposto este veículo como um dos ícones de nossos dias.
O trem, ou melhor, a sua carcaça, em alguns momentos aparece no
vídeo como um dinossauro tecnológico que vem nos assombrar e nos dizer que a superação dos meios e seus usos é resultado de uma relação tensa travada entre a Natureza e o homem. Um conflito surdo e ruidoso no qual esquecimento e memória se tocam e se chocam.
A projeção do vídeo à altura do rodapé, remete ao lúdico e ao universo infantil que têm o solo como referência. O trabalho da artista, aliás, sempre tangenciou a fixação adulta pela miniatura com o colecionismo de microbjetos, e, consequentemente, à infância e seus fantasmas, fase em que desejos recônditos e os complexos podem se fixar na personalidade projetando seus ecos para o resto da vida. São elementos de seu trabalho, mínimos armários, cadeiras, kits de casas e estações de trem em estilo europeu (não que Garbelotti prefira o estilo, mas porque há um verdadeiro mercado produtor e consumidor deste tipo de jogo no velho continente). Pródigo material para reflexões sobre conceitos ligados, principalmente, à arquitetura e à memória.

A escala reduzida oferece a oportunidade para se observar as dimensões, os lugares das coisas no mundo e os problemas que advém da instabilidade que a passagem do tempo reserva aos objetos. A estabilidade e permanência das coisas depende de uma série de fatores temporais, mecanismos políticos, sociais e econômicos próprios de uma época, que se transmutam e geram novos conceitos e idéias os quais descartam objetos-símbolos de antigas concepções. A miniatura carrega um quê de ironia com idéias e coisas tornadas fora de lugar com o incessante impulso tecnicista do homem moderno. Jonathan Swift quando escreve “As Viagens de Gulliver” destila comentários alegóricos ácidos à pequenez e mediocridade da sociedade inglesa de seu tempo. Em certo trecho de “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carrol, a protagonista, acossada pela obesa Rainha de Copas e sua patética guarda composta das cartas do baralho, come um biscoito mágico e fica gigantesca.

A reviravolta evidencia o quão ridículos são a Rainha, seus guardas e toda a sua corte. Ao mesmo tempo, Alice torna-se arrogante, adquire uma auto-confiança desmedida em suas novas dimensões avantajadas.
Os kits de Raquel Garbelotti desvelam as sutilezas de um mundo pequeno e descartável, construído pelo homem com o cálculo de matemático megalomaníaco, onde o “jogo da vida” é encarado como um fim em si mesmo.
A alteração da escala natural pode comentar e criticar com humor e sutileza o egoísmo e as mesquinharias que impulsionam e podem estar por trás de qualquer aparato tecnológico. A suplantação de um sistema não chega a nós com a pureza ou a lisura que gostaríamos ou idealizamos. As dimensões reduzidas ou ampliadas problematizam os objetos e nos proporcionam a percepção crítica acerca de seus lugares e funções bem como suas relações conflitantes e ásperas com o próprio sistema que os concebeu.


__A __MEMÓRIA __É __O __OLHO __ABERTO___DA ___MENTE


“Mais recordações tenho eu que as que tiveram todos os homens desde que o mundo é mundo”. No conto “Funes, O Memorioso”, o escritor Jorge Luis Borges narra a história de um homem com uma memória tão prodigiosa que a diferença entre lembrar, imaginar e sonhar acabava sendo nenhuma. A memória de Funes era tão infinita quanto o Universo. Mais que isso: sua memória parecia ser a Memória Universal. O que parecia uma boa qualidade passa a ser crescente ameaça, funesta característica com sua fúria incontrolável. O homem sonha com as respostas supondo. Se não as viveu, imagina.
Na tentativa de buscar a explosão primordial (Big Bang), astrônomos captaram nos confins do universo, através de poderoso telescópio, as radiações de fundo, registros ou fósseis que correspondem aos primeiros momentos do Cosmo. A procura humana pelas respostas às suas perguntas mais profundas é infinita. O edifício que o ser humano tem construído em busca do saber absoluto é o projeto de uma arquitetura que tem os verbos sonhar, imaginar e recordar como alicerces e tijolos. Seus sonhos e desejos ocultos estão incógnitos nos confins do universo ou, no mínimo, enterrados nas camadas mais profundas do nosso planeta.
O que pode haver de mais genuíno nestes sonhos se arrisca a deslizar no assoalho reluzente mas escorregadio da vaidade. A Natureza oferece a concretização dos sonhos, imaginações e lembranças. Dá ao homem a chance de se perceber íntegro e integrado ao Absoluto. Mas abre a porta estreita de um labirinto vertiginoso que se descortina enigmático ecoando em seus corredores escuros e fantasmagóricos a fatídica frase: “Decifra-me ou devoro-te”.
A imagem virtual da esfinge que desafiou Édipo a decifrar o seu enigma surge para o homem no labirinto de espelhos do conhecimento onde o que ele tem que descobrir, ou constatar, é que não sabe nada. “Só sei que nada sei”, disse Sócrates. A arquitetura do conhecimento adquire vida própria e tenta registrar segredos insondáveis e abissais em seus alicerces e tijolos. Nos abismos da ignorância o conhecimento escapa à sedenta curiosidade humana. A Natureza parece não se permitir ser inteiramente decifrada. O seu reflexo no espelho do conhecimento é impreciso. As bases do conhecimento, tão caras ao ser humano, parecem sempre estar à beira da dissolução ou destruição.
A árdua construção do edifício do conhecimento evoca os ecos trágicos da Torre de Babel. A arquitetura dessa construção reflete, a contragosto, a arquitetura caótica de sua destruição. O conhecimento talvez esteja contaminado por um vírus primevo que nos impede de decifrar os enigmas primordiais.
Os cadáveres ou estão enterrados ou estão à luz dos dias do homem, tanto faz. Os fósseis dos dinossauros ou dos nossos ancestrais afloram à superfície da Gaia na forma de dúbios presentes como se ela dissesse: “Aí está, não é só você que tem o direito de destruir”. A relapsa memória recolhe velhos ossos na mesma proporção que acumula novos cadáveres.
No filme, “Elogio ao Amor” de Jean-Luc Godard um personagem sentencia: “Não há resistência sem memória e universalismo”. A memória pode ser uma força libertadora. Para os que a rejeitam resta a barbárie, maldição que os acusa e os condena ao ostracismo da história universal.


_________MEMÓRIA_________ ARQUIVO___________HISTÓRIA


Me vêm á mente as pinturas metafísicas de Giorgio de Chirico. O vazio dos espaços arquitetônicos que aludem a uma utopia do mundo clássico e à pequenez dos homens reduzidos a bonecos ou sombras à margem destes espaços, são como cenários que nada exprimem, exceto seu próprio mal-estar. O homem constrói cenários e neles tenta preencher seu próprio vazio. Os sábios edifícios que o ser humano constrói são as propriedades metafóricas do seu vazio.
Vejo em minha mente os arquetípicos relógios derretidos de Salvador Dali. A memória persiste através dos engenhos que tentam captar o tempo e o saber, mas jaz derretendo sob o sol inclemente, o calor desértico e a luz cegante da fugidia Sabedoria Universal.
Volto ao conto “Funes, O Memorioso”, de Borges. “Minha memória, senhor, é como despejadouro de lixo”, diz o pobre Funes. As estações circulares ou ziguezagueantes da memória são como lixeiras ou cemitérios. Ruínas ou escombros às quais voltamos
em eventuais e dolorosas viagens turísticas. Em sua sanha civilizatória, o homem tem imposto a si mesmo o exaustivo papel de lixeiro da Memória Universal – acervo fulgurante de imagens que o Universo tem criado e ele, o homem, tem decodificado pelos milênios afora. Mas elas podem voltar à superfície como os mortos-vivos de Poltergeist, que vêm para expulsar os invasores do seu cemitério ou dos filmes-pesadelo de George Romero. “Somos governados pelos mortos”, disse alguém. O poder da memória pode nos anular mas, por outro lado, é o que nos mantém vivos e íntegros.
A tecnologia reforça a vontade, a velocidade e a ânsia feroz de conhecer. Os trens, carros e ônibus tentam alcançar, ansiosos, os horizontes da sabedoria. Mas os esperam as estações da memória com suas quimeras inatingíveis e indecifráveis. Como a nos lembrar que atrás de qualquer conhecimento espreita a ignorância e embaixo de toda memória repousa o olvido.






Texto do catálogo da vídeo-instalação da artista Raquel Garbelotti para a XXV Bienal de São Paulo - 2002

Fotos: Orlando Maneschy




0 comentários

Se a pintura morreu como quis a arte moderna, num caso extremo de matricídio ou parricídio, e como queriam seus detratores, a verdade é que ela já é a morta mais viva ou mais ressuscitada da história da arte. Desde os anos 80, quando era dada como morta e constatado seu óbito, estamos sempre assistindo, de maneiras mais ou menos brilhantes, à sua ressurreição ou seu eterno retorno. Egresso da geração 80 e membro do grupo Chelpa Ferro, o artista Luiz Zerbini com o specific site-instalação “paisagemnaturezamortaretrato” encena, em grande estilo, a “volta triunfal” da famosa e suposta morta-viva. Numa sala quase toda pintada de preto, exceto as colunas e as estruturas arquitetônicas pintadas de diversas cores, estão expostas três telas que reinterpretam aqueles três gêneros da pintura. Três gêneros clássicos que trouxeram fama e fortuna a grandes pintores da história da arte ocidental. Envoltas em negra atmosfera teatral, as telas são como três grandes janelas ou espelhos, de um tom prata quase plúmbeo, que podem refletir em sua quase opacidade, as (im)possibilidades da pintura contemporânea, assim como o estado precário e fugaz da arte. A primeira tela, à direita de quem entra, representa a natureza-morta. A iluminação está focada num crânio que repousa, enigmático, no chão à direita da tela. Na segunda tela, a iluminação foca o espectador. Na terceira tela a iluminação, difusa, amplia ou dilui o ambiente ressaltando as cores fortes das colunas e estruturas numa alusão à paisagem que aí, olha a ironia, não passa de uma confluência das faixas verticais e horizontais das colunas e estruturas da sala pintadas em tons saturados. Como no teatro e no cinema, a iluminação “dirige” o olhar do espectador, refletindo em cada tela o que está no foco. Sim, essas três telas não são uma natureza-morta, nem um retrato, nem uma paisagem. São a representação virtual desses gêneros. Essas três emblemáticas janelas ou espelhos, em sua antropofagia virtual, parecem querer engolfar quantas naturezas-mortas, quantos retratos e quantas paisagens aparecerem em sua frente. Vorazes, em seu misterioso silêncio metálico, essas telas encerram, virtualmente, todas as paisagens, todos os retratos e naturezas-mortas que já foram ou serão pintadas. O manto negro que as cerca se reveste ambiguamente de significações ora funéreas, ora uterinas. Será uma tumba, será um útero? Nascimento e morte convivem e se entrelaçam em movimento pendular nesse ambiente de grave solenidade não fossem as cores berrantes das colunas e estruturas arquitetônicas da sala que fazem contraponto ao negro reinante e que conferem certa atmosfera kitsch ao specific site-instalação. Em referência irônica ao neo-plasticismo de Mondrian, ecoa, num silêncio tumular, virtual trilha-sonora construtivista que com seu rigor ético e estético vêm nos avisar que nem tudo está perdido. Que sim, a grande falácia que se anunciou planeta afora, a tal morte da pintura, foi uma grande armação, mais uma das grandes mentiras que o século 20, em sua pretensão iconoclasta, nos pregou e que o século 21 pode estar enterrando. Em sofisticada metalinguagem e usando meios “estranhos” à pintura clássica, o specific site-instalação de Zerbini revigora a pintura e encena em chave ambivalente o renascimento ou a suposta morte desse meio primordial que alcançou seu ápice criativo no século 20 com a proliferação e o jogo infinito e virtual das linhas retas e curvas. A caveira no chão parece sorrir, zombeteira, evocando Shakespeare em movimento pendular, ecos fantasmagóricos da dúvida angustiada de Hamlet, “to be or not be, that’s the question”. O caráter tragicômico do trabalho nos arremessa a um palco que nos envolve e nos estimula a reagir a um estado letárgico do qual, parece, acabamos de sair. Talvez do purgatório da arte? Bem, a pintura não é mais a mesma. Como quem passou uma temporada no inferno (ou no céu, como queiram) ela, velha dama indigna, volta transfigurada com corpinho de jovem gamine, qual bonequinha de luxo vestida num dramático pretinho. Provocante, o trabalho de Zerbini não dá chance à passividade, aí não há lugar para a simples contemplação. Sim, a pintura é ou não é, está viva ou não está? O trabalho de Luiz Zerbini reafirma com alvissareira energia as ilimitadas possibilidades de um meio que, se depender da criatividade de artistas como ele, passa muito bem e não morre tão cedo.
Minha última pintura (detalhe), 2007
270 x 420 cm
foto: Luiz Zerbini



paisagemnaturezamortaretrato - Luiz Zerbini


De 3 de outubro a 16 de novembro de 2008
Terça a sexta, das 12 às 21h
Sábados, domingos e feriados, das 10 às 18h
Centro Universitário Maria Antonia
Rua Maria Antonia, 294 - Vila Buarque
São Paulo - SP
Tel.: 3255-7182
www.usp.br/mariantonia

0 comentários domingo, 9 de novembro de 2008

Dentre os objetos utilitários os que considero ter a auto-estima mais baixa são os guarda- chuvas e as sacolinhas de plástico. Os guarda-chuvas gozam de auto-estima mais elevada. São escolhidos e comprados em lojas ou camelôs, por critérios como cor, padronagem, qualidade e preço, para serem mantidos em casa ou em bolsas. Há, portanto, o fator afetivo que nos aproxima deles. São, talvez, as maiores vítimas do esquecimento.
As sacolas plásticas pertencem à outra categoria de objetos: os utilitários descartáveis. Artefatos da produção industrial em larga escala parecem habitar uma região límbica entre os objetos utilitários e os descartáveis, ou o purgatório entre o céu e o inferno da sociedade de consumo. Embora, em sua origem, sejam usadas como embalagem, com frequência, num prolongamento de sua vida útil, na falta de uma sacola “de verdade”, desempenham o papel desta. Invólucros do dia-a-dia, elas se impõem com sua onipresença ambígua num fenômeno de multiplicação infinita que revela muito sobre nossos hábitos e ímpetos consumistas. Em sua impessoalidade de objeto vulgar, elas são, ao mesmo tempo, testemunhas e cúmplices do tráfico e tráfego de nossas vontades e impulsos intermediados pelo impacto e os descaminhos da propaganda em nossas vidas. Resíduos de grande visibilidade, as sacolas convivem com a função anônima de ser um objeto que simetriza a fugacidade de nossos impulsos em estabelecer rápidas relações de câmbio. A velocidade com que circulam em nossas mãos e depois são passadas a outros destinos, senão o lixo, faz delas objetos quase invisíveis. Por trás dessa superestrutura movediça e cambiante, a relação afetiva que estabelecemos com produtos como esse é nenhuma. Podemos até entrever rápida relação estética com uma ou outra sacola de design ou logotipos mais diferenciados mas, num mundo inflacionado por objetos descartáveis, seria catastrófico, por prazer estético, acumularmos tais produtos.
Quem mais senão Jac Leirner, com seu pendor incontrolável para colecionar objetos-alvo da desatenção contemporânea, se entregaria a tal tarefa? Quem conhece o trabalho da artista sabe que o acúmulo e o colecionismo de certas coisas triviais e descartáveis são fundamentos importantes, e características, para a compreensão do seu trabalho. Sacolas de plástico já foram utilizadas anteriormente pela artista, mas circunscritas ao circuito dos museus e, por extensão, da arte, em que, num esperto jogo metalinguístico, Jac tecia ironias às grifes do mercado avançado da arte, ao qual, como artista de sucesso, ela tem acesso. À trajetória errática dos objetos de câmbio, bem como a seus percursos rápidos e efêmeros, a artista propõe uma pausa ou tempo para observarmos as sacolas como (por que não?) companheiras anônimas e quase sempre inseparáveis de nossas errâncias. O que para nós representam atos insignificantes e fortuitos, porque parte de nossa intimidade cotidiana, para Jac Leirner são objetos que, depositários de nossa intimidade social, desvelam ações revestidas de uma importância que, se podem se encerrar em si mesmas, guardam em seu bojo uma inerente significação,
se estendendo e se intercomunicando com outras ações (nossas e de outras pessoas), percorrendo e perfazendo redes ou circuitos que evidenciam a complexidade da comunicação humana. Em sua mísera condição descartável, desenhadas e fabricadas para durarem certo tempo, como gado a caminho do matadouro, as sacolas plásticas são eliminadas tão rápido quanto apareceram num processo de reposição que os nossos sentidos propositalmente desatentos parecem não ser capazes de captar. Sua existência corresponde ao tempo do uso que fazemos delas, de nada importa se continuarão, juntamente com a ação que justificou a sua aquisição, a existir materialmente na lixeira de nossas vidas. Não esqueçamos que esses artefatos são de plástico, material que, questão ecológica presente na ordem do dia, leva algumas centenas de anos para se deteriorar. A artista como que seqüestra (ou socorre) alguns desses objetos do alucinante círculo ou ciclo volátil a que estão destinados. Com isso, opera uma espécie de curto-circuito ou abrupta interrupção sobre o inexorável processo que sempre termina em certeiro descarte. Livres desse ciclo, as sacolas são submetidas a minucioso trabalho de descarnamento ou evisceração que Jac Leirner realiza com incisões geométrica e cirurgicamente precisas. Como cirurgiã plástica, não sem certa dose de crueldade, ela suprime das sacolas a logomarca ou detalhes impressos, signos que as tornam clones de plástico e as ligam como cordão umbilical ao ininterrupto e frenético circuito do consumo, problematizando sua condição social e instaurando um esvaziamento de seu DNA comercial. Depois dessa intervenção cirúrgica, ela procede a um tipo de empalhamento ou mumificação, recheando as sacolas com enchimento de poliéster e finalmente costurando-as. Objetos bidimensionais desenhados e fabricados para embalar ou envolver e com forte inclinação tridimensional devido aos conteúdos que acondicionam, as sacolas ficam, com o enchimento, no meio termo entre estruturas bi e tridimensionais. Desconstruídas, mutiladas e vazadas, seu caráter volúvel desaparece por completo, mais parecendo agora molduras. Mas molduras de quê? As áreas vazadas são como janelas abertas para o nada que nos convidam para zonas vazias e desconhecidas. No mínimo podem nos deixar entrever, com ironia fina e escorregadia, ecos do construtivismo. Sob o impacto da desconstrução operada, do descarte ao destaque, sua condição corpórea (de plástico) e seu design (curviretilíneo) são paradoxalmente reiterados, estimulando o espectador a observar a felicidade de sua forma utilitária, com seu rigor formal, sintético e pragmático exemplares, muito além de sua digna função e objeto de propaganda. Na moldura se insinua o fantasma da Bauhaus para desaparecer, etéreo, sob quantas camadas de tinta, quantas figuras ou paisagens imaginárias pudermos conceber a fim de não suportarmos o vazio que nossos olhos inconformados insistem em tentar preencher. Um suave sopro da ética construtivista se manifesta acompanhado de um (in)discreto e sardônico sorriso duchampiano. Na zona limítrofe entre a vulgarização e a sofisticação, entre a forma racional e a função social que o objeto, ainda que mutilado, teima em reivindicar para si, o pastiche não nos deixa duvidar da condição íntegra de sua forma. Com a mutilação, a artista nos devolve o objeto em sua pureza funcional e pragmática, sem sua máscara social e comercial que, talvez, o distanciasse de nós. Despidas de qualquer impostura, as sacolas parecem nos pedir compreensão e, quais espelhos ou janelas da alma, nos sugerir que, num sistema volúvel que a toda hora tenta desfigurar ou mutilar nossos valores, não seria má idéia olharmos, nem que seja de vez em quando, para dentro de nós mesmos.




Osso 008 - Jac Leirner


De 3 de outubro a 16 de novembro de 2008

Terça a sexta, das 12 às 21h

Sábados, domingos e feriados, das 10 às 18h

Centro Universitário Maria Antonia

Rua Maria Antonia, 294 - Vila Buarque

São Paulo - SP

Tel.: 3255-7182